domingo, 11 de maio de 2014

‘Consumo étnico’ aquece negócios entre empreendedores negros.

alt
Especializada em penteados
afro,
Chris tem público masculino
forte que curte dreads e tranças
Cris Olivette
A fundadora da Cia. das Tranças,
Chris Oliveira, era produtora de moda antes de criar um salão especializado em cabelo de pessoas negras. “Não gostava do atendimento que recebia nos salões e passei a cuidar sozinha de meu cabelo.”
O resultado foi tão bom que as pessoas começaram a elogiar e a perguntar quem cuidava de seus cachos. “No início, fiz alguns cabelos por hobby. Nesse processo, vi que muitas pessoas tinham a mesma infelicidade que eu, por não encontrar bons salões. Usei as críticas a meu favor e criei um salão como sempre sonhei encontrar.”
Após 12 anos, Chris comanda uma equipe com 13 profissionais. “Há dois anos cuido só da gestão da empresa, e tem sido ótimo porque nesse período o negócio cresceu 50%.” Ela diz que 80% de seu público é de mulheres. “Em relação a dreads e tranças, tenho um público masculino forte.” Chris diz que não são só negros que buscam penteados afro. “Recebemos japonesas, loiras, mas é claro que negros representam 80%.”
A atividade de Chris, engrossa o estudo que aponta crescimento de 29% no empreendedorismo entre negros, ocorrido em uma década. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra em Domicílios (PNAD), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que considerou o período entre 2001 a 2011. Segundo o estudo, o empreendedorismo entre negros passou de 43% para 49%.
O consultor de marketing do Sebrae-SP Marcelo Sinelli pondera, entretanto, que o que cresceu muito, na verdade, foi o número de pessoas que se declaram negras. “Para o IBGE, o critério que define se uma pessoa é negra ou não é a autodeclaração. É provável, que muitos já fossem empreendedores, mas não se declaravam negros.”
altSinelli diz que as transformações ocorridas na sociedade brasileira nos últimos 20 anos contribuíram para a mudança de postura. “Está tudo atrelado. O crescimento do orgulho de ser negro, a ascensão social das classes C e D, e o aumento do acesso à informação abriram uma série de oportunidades, estimulando negócios específicos, que podemos chamar de consumo étnico.”

Ana Paula (à esq.) e Cristina investem na cultura africana
A sócia da Xongani, Ana Paula Xongani (foto na capa), está entre os que privilegiam
o consumo étnico. “Assim como outros negócios voltados ao público negro, a Xongani nasceu para cobrir uma lacuna. Não havia no mercado acessórios que valorizassem a cultura africana.”
Cristina, sócia e mãe de Ana Paula, afirma que a profissionalização da marca veio a partir da demanda. “Tudo foi concebido para atender as necessidades das mulheres da família. Com o tempo, recebemos encomendas e o negócio cresceu.”
Hoje, após quatro anos de mercado, a Xongani produz 26 itens como sapatilhas, brincos, pulseiras e turbantes. “No ano passado, lançamos nosso primeiro modelo de vestido de noiva afro-brasileira. Nosso principal diferencial está nos tecidos, importados da África”, diz Ana.
Além de vender pelo e-commerce, a marca vai aonde o publico está. “Participamos de grandes eventos realizados em todo o País como o Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, Feira Preta, Afrolatinidades, Rua do Samba, Festa de São Benedito e Feijoada da Mãe Preta. Também visitamos eventos na periferia de São Paulo.”
altUma das precursoras desse movimento de valorização de produtos específicos para a população negra foi a fundadora da Muene Cosméticos, Maria do Carmo Valério, de 81 anos. “Foi muito difícil ajustar as fórmulas porque o Ph da pele negra é diferente. Tive de mudar várias vezes de químico.” No mercado há 25 anos, a Muene comercializa 121 itens, tendo como carro-chefe o pancake, com nove tonalidades.

Araújo (centro), criou agência especializada em modelos negros há 14 anos.
Hoje, seu book tem 200 nomes
Antes de fundar a agência HDA Model, Helder Dias Araújo era professor de passarela e coreógrafo na Bahia. “Vim para São Paulo praticamente sem dinheiro. Trabalhei três anos em uma agência. Quando ela fechou, vi que não havia na cidade uma agência especializada em modelos negros. Agarrei essa oportunidade. Hoje, 14 anos depois, capacito e formo profissionais. Nosso book contém mais de 200 modelos.”
Ele conta que o curso de modelo tem 33 matérias como etiqueta, teatro, passarela, nutrição, maquiagem e postura. “Na metade do curso, que dura seis meses, eles participam de uma banca que avalia quem está tendo um bom aproveitamento e deve concluir a formação.”
Helder afirma que os aspirantes a modelo passam por avaliação e são indagados sobre os estudos. “É fundamental que o modelo continue estudando. Essa carreira é efêmera e muitas vezes ingrata. Eles precisam ter os pés no chão.”
altO empresário diz que o mercado para modelos negros está crescendo. “Mas acredito que não foi o mercado que se abriu e sim, foi o negro que se conscientizou e está buscando seu espaço. Os negros perceberam, enfim, que a grande ferramenta é a educação, com ela é possível ir aonde quiser.”


Adriana, fundadora da Feira Preta
Militância empreendedora impulsiona negócios
Formada em gestão de eventos e com especialização em arte e cultura, Adriana Barbosa é uma empreendedora engajada. Desde 2002, realiza anualmente a Feira Preta. “Criei a feira pela necessidade de haver um evento com esse recorte racial de segmentação, levando em conta não apenas o viés da militância mas sobretudo pela oportunidade de negócio. Não existia nenhuma feira com essa abordagem que reunisse produtos e cultura”, afirma.
Adriana conta que o evento começou com 40 expositores e hoje são 100 participantes de todo o País. “Em 2005, criei o Instituto Feira Preta que organiza ações culturais, festival de música, seminário de boas práticas em economia criativa e o curso Preta Qualifica, que capacita empreendedores que participam da feira, em áreas como formulação de preços e atendimento ao público.”
O treinamento é feito em parceria com o Sebrae. Mas o instituto também organiza capacitação ligada à área de cultura, que aborda assuntos como elaboração de projetos, captação de recursos e estratégia de comunicação. “O objetivo é dar aos artistas um olhar de gestão sobre sua própria obra.”
Segundo Adriana, existe um potencial grande a ser explorado nesse nicho.
“A preocupação é saber se quem produz compreende as particularidades desse público, cada vez mais exigente, e se tem escala para atender a demanda crescente.”
A empresária conta que a terceirização de algumas etapas de seus negócios é feita por meio de redes que agrupam profissionais negros. “Uma delas é a Kultafro. Hoje, 70% das minhas produções são feitas por profissionais e empreendedores negros. Adotamos o conceito americano Black Money, para fazer circular dinheiro dentro da comunidade negra.”
A diretora comercial da loja de bonecas Preta Pretinha, Joyce Venâncio, se inspirou em um sonho de infância para criar o negócio. “Quando minhas irmãs e eu éramos pequenas, queríamos ter bonecas negras e nossa avó fez bonecas com tecido marrom para nós”, diz Joyce. Em 2000, as irmãs se uniram para criar a loja que oferece, além de bonecas, brinquedos educativos, fantoches e bonecos de madeira.
“Não quisemos segregar produzindo só bonecas negras, elas são maioria, mas também temos orientais, muçulmanas, russas etc.” Joyce afirma que, com o tempo, viu que era necessário criar bonecas com enfoque na inclusão. “Hoje, temos bonecas cadeirantes, albinas e obesas, entre outras, que são muito usadas em aulas sobre inclusão.” Em 2010, elas também fundaram o Instituto Preta Pretinha, que promove oficinas e inclusão de pessoas carentes.

terça-feira, 6 de maio de 2014

8ª edição do Festival de Cultura e Arte Negra 2014

Informação adicional do Projeto

A Realização do Festival de cultura e arte negra surgiu com objetivo de dar visibilidade o artista que trabalha com a diversidade cultura na perspectiva de gênero é raça foi com esse objetivo que surge o  evento e com muita lutar é organização vamos realizar a 8ª edição do Festival de cultura e arte negra. É chegada a hora de perdermos o medo, e hoje através do Festival de cultura e arte negra, temos certeza, este objetivo cultural que faz parte da vida dos homens será alcançado e também pela importância do próprio tema motivar o artista no desenvolvimento de Seu potencial.

Programação

PROGRAMAÇÃO DAS MESAS DE DEBATES CCH UNIMONTES PRÉDIO 02 AUDITÓRIO DE 19.30H as 21.30 H

13 DE MAIO DIA NACIONAL DE LUTA CONTRA O PRECONCEITO RACIAL

Dia 13 de Maio horário 19.30H as 21.30 H

Mesa de debate com Papiõn Cris Santos
A Lei 11.645/08 e Intolerância a Espiritualidade Indígena e Oficina de Reutilização e Grafismos Indígenas das 16.00h às 18.00h.


Dia 14 de Maio horário 19.30H as 21.30 H

Mesa sobre a lei 10639 ,Com Maria Du Carmo Costa ( Madu Costa) Professora de Arte e Literatura na empresa Escola Municipal Belo Horizonte
Contando  estória,Slogan.:Já falei 10639 vezes que racismo é crime.

Dia 15 de Maio horário 19.30H as 21.30 H

Mesa: Autoestima e imagem corporal, com a Prof.ª Luciana de Almeida Moreira.
Pesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Narrativas Formativas – GEPENAF e  Crime cibernético, com a Advogada Lucélia Saraiva Aguiar -

Programação das oficinas

Local das Oficinas ( Núcleo de Dança Luciano de Jesus ) AV Amperes 365 Bairro de Lurdes Próximo a Igreja Católica. 

Sexta Feira dia 16 Oficina de grafite com Wender Miranda - Montes Claros,  das 9H às 12H /Capoeira Angola com Jean Cigano – Montes Claros,  das 9H às 11h/ de Break com Dário Adam -Montes Claros, das 15H às 17H/ de Mascaras Africana Mascaras Africana com Olívio Cerqueira - Montes Claros, das 18H às 21H

Sábado 17 Oficina de Mascaras Africana Mascaras Africana com Olívio Cerqueira - Montes Claros, das 8H às 14h /Trança e Penteado com Ednéa Rubim - RJ e Claudia Santiago - RJ das 8H às 12.H / de Turbante e Amarras com Neguinha Moura -RJ das 13.H às 17.00H

Domingo dia 18 Oficina de Dança Afro com Evandro Passos - Belo Horizonte das 8H às 10H/ Percussão com Luciano de Jesus - Montes Claros das 10H às 12H 

Programação cultural no Quintal Cel Prates 92 Centro

Apresentações Culturais, Culinária Africana, Moda e Beleza Negra com Desfile de Turbantes e Amarras,Lançamento de Livro, Dança Afro, Capoeira e Comida di Preto.
Contatos: 38 91044369 TIM /38 88460040 OI/ 38 97409883 VIVO


Objetivos das oficinas do FECAN

Oficina de Grafite

GERAL

Contribuição e capacitação na compreensão do desenho e da pintura como meios expressivos, com valores históricos – culturais de importante papel social, assim como utilizar diferentes formas de procedimentos através do uso de materiais próprios do campo plástico a partir da análise da produção artística de rua e seus aspectos semânticos.

ESPECÍFICOS



Promover a utilização e pesquisa de materiais artísticos; desenvolver a sensibilidade e a criatividade dos alunos; Possibilitar uma reflexão crítica dos alunos em busca da construção de um conceito de  Cidadania; Compreender o uso dos elementos básicos da linguagem visual; Identificar os significados expressivos e comunicativos das formas plásticas; Apontar as transformações corridas na sociedade de acordo com sua evolução
Industrial; Enfocar em linhas gerais as diferenças entre graffiti e pichação; Estudar as principais intervenções estéticas de caráter urbano e ambiental; proporcionar, um estudo de desenho, onde será abordado todos os elementos necessários para se chegar a técnica do graffite (estudo de cores e formas por exemplo). Também estará trabalhando o olhar dos participantes da oficina para o seu cotidiano, procurando fazer da oficina um observatório do espaço onde você esteja inserido, a fim de valorizar a identidade local e ajudando na formação de cidadãos participativos.


Oficina de Dança de Rua


Esta oficina visa, não só a difusão da história da dança e seus movimentos, mais também a prática da dança de rua, analisando o processo evolutivo da mesma, realizando vivências paralelas, comparando a dança "contemporânea" com a "primeira" dança a ser praticada. Proporcionando o conhecimento do próprio corpo, ajudando num desenvolvimento motor melhor, possibilitando o aluno obter respostas fisiológicas, psicológicas, que resultarão num melhor desempenho em vida pessoal e profissional. Trabalhando principalmente o respeito mútuo, convivência em grupo, socialização e a formação como cidadão.


Oficina de Turbante

Os turbantes têm origem na África, e os turbantes são usados como e para proteção de ORI (cabeça). Na África a forma de adornar (amarrar) a cabeça tem significados.
Jovens e adolescente utiliza turbantes menores e sem ornamentos, bem discretos, e assim conforme o seu poder maior o seu turbante.
No Brasil é uma resistência do nosso povo para com nossos irmãos africanos e ancestrais. Usados no ILE ASE (casa de candomblé),Blocos afros, afro descendentes Afoxés, E por pessoas iniciadas na Religião de MATRIZ AFRICANA.
Hoje é uma tendência na moda que tem influência em África, e temos visto o uso dos turbantes em diferentes regiões, significando como a estampa africana e seus costumes estão nós influenciando ainda hoje.

Oficina de penteados africanos

Objetivo a valorização e preservação da cultura afro-brasileira, proporcionando através do fazer e do saber, poderemos compreender a identidade cultural de matriz africana no Brasil. O fortalecimento da cultura de matriz africana será desenvolvido não só no período das oficinas, mas durante o ano de 2014 com várias iniciativas nascidas nas edições anteriores do FECAN, que sempre pautou pelo resgate e fortalecimento das manifestações culturais de matriz africana.

Oficina de Mascaras Africana

As Máscaras Africanas foram às protagonistas da arte africana. A máscara representava um disfarce místico com o qual os africanos poderiam absorver forças mágicas dos espíritos e assim utilizá-las em benefício da comunidade: na cura de doenças, em rituais fúnebres, cerimônias de iniciação, casamentos e nascimentos. O trabalho com as máscaras africanas também contribui para o reconhecimento da identidade afro brasileira integrando a memória cultural do nosso país, a oficina visa também oportunizar ao público interessado um encontro com as máscaras africanas, concebidas nas suas dimensões técnicas e representativas desde os princípios fundamentais de concepção até sua utilização como um potente elemento para o trabalho criativo do ator, a oficina não pressupõe nenhum conhecimento prévio ou específico de escultura, mas procura uma flexibilidade nas exigências de pré-requisitos de modo a fomentar um trabalho sério de divulgação de uma técnica pouco explorada e uma troca mútua de experiências.                       

Oficina de Reutilização e Grafismos Indígenas


A intenção desta oficina é propagar a cultura Indígena e seu grafismo, acreditando que seja de grande importância para todos, este conhecimento milenar existente me nosso país. Os indígenas buscam referencias visuais nos elementos da natureza, para a construção dos desenhos nas pinturas corporais. Por tanto, utilizam-se de pigmentos oriundos de vegetais e minerais geralmente encontrados nas regiões onde habitam.
As técnicas decorativas, bem como as suas simbologias encontram no corpo humano um dos seus suportes para a representação estética da arte plástica, que alem de uma manifestação artística, é também um resgistro etnocultural. Essas mesmas observações valem para os padrões encontrados nas pinturas dos utensílios cotidianos, nas indumentárias e nos desenhos do espaço habitacional.
Os aspectos visuais, obtidos através da semiótica apresentada na decoração corporal, remetem-nos à identidade de cada etnia, onde são relatadas as mudanças sociais básicas decorrentes do processo etário, hierarquia, gênero, entre outros. Para estabelecermos relações entre esses diferentes grupos humanos promovendo a interculturalidade, necessitamos de maiores estudos pela gama de informações que eles nos oferecem.
A arte Indígena constitui-se um referencial importante, para os professores que pretendem desenvolver projetos interculturais constituindo-se uma porta de entrada a outras questões, pois nas sociedades Indígenas, a arte está relacionada a todos os outros aspectos da vida social, diferentemente do conceito de arte na nossa sociedade. Assim as pesquisas relacionadas a estética considera as tradições e o contexto histórico-social de cada etnia, desbancando a idéia generalizadora, difundida inclusive nos livros didáticos. A pintura e as manifestações gráficas dos grupos Indígenas brasileiros foram objetos de atenção desde o primeiro século da colonização. Os estudiosos nunca deixaram de registrar-las e de admirá-las, estejam elas presentes nos corpos, nos utensílios, e atualmente também nos papeis, que se apresentam como um novo campo de expressão para os artistas Indígenas.

Oficina de Percussão

Objetivo da oficina é a  interação e resgate da musicalidade ancestral africana promover vivências sonoras com os participantes, possibilitando novas descobertas através dos instrumentos construídos e tocados por eles mesmos, partindo da abordagem eco-sustentável dos recursos existentes na região circundante (bambuzal, bananeiras) e dos materiais específicos fornecidos pelo facilitador; Construir e tocar instrumentos de percussão, experimentando diferentes combinações de timbres e afinações, tendo como repertório tanto improvisações estruturadas como motivos melódicos de inspiração étnica e canções de temáticas voltadas para o dia a dia do aprendiz da percussão.

Oficina de capoeira angola


Os objetivos da oficina de Capoeira Angola é a ampliação do universo cultural acerca da capoeira, valorizando seus aspectos herdados da cultura africana em sua pluralidade de formas adquiridas durante seu processo histórico de criação e recriação na África e no Brasil, traduzindo-se assim, como um importante elemento de resistência da cultura negra. Além disso, a Capoeira Angola contempla os indicativos educacionais no que tange a valorização da diversidade, a formação de identidade e o repúdio a qualquer forma de discriminação.
Sem medo de ser feliz a capoeira angola também contribui com o conhecimento do corpo do praticante, construindo assim a consciência corporal, ela é uma terapia para o corpo e alma

domingo, 13 de abril de 2014



FESTIVAL DE CULTURA E ARTE NEGRA - FECAN de 10 a 18 de Maio de 2014.

Para oficinas de: Capoeira Angola com Jean Cigano – Montes Claros, Dança Afro com Evandro Passos - Belo Horizonte, Break com Dário Adam -Montes Claros, Percussão com Luciano de Jesus - Montes Claros, Grafite com Wender Miranda - Montes Claros, Mascaras Africana com Olívio Cerqueira - Montes Claros, Tranças e Penteado com Ednéa Rubim - RJ e Claudia Santiago - RJ, Turbante e Amarras com Neguinha Moura --RJ, Reutilização e Grafismos Indígenas com Papiõn Cris Santos – RJ.

Investimento de 20,00(Vinte Reais) para as oficinas e de 10 ( dez reais) para as mesas de debates com direito a certificado de 50 horas

Comprovante de deposito no Inicio das aulas.
Na Conta Corrente 48625-6
Agência 0104-X
Banco do Brasil
Favorecido - Hilário Bispo da Fonseca

Vagas Limitadas

30vagas para Capoeira Angola, 30 vagas Dança Afro, 30 vagas Break 30 vagas Percussão 20 vagas Grafite 15 vagas Artes Plásticas mascaras africana 20 vagas Tranças e Penteado, 20 vagas para Turbante e Amarras (obs: cada aluno deverá levar uma pessoa para ser o modelo), 30 vagas para Reutilização e Grafismos Indígenas.


Nome_________________________________________________________________End_____________________________________________________________N_____Cep____________Cidade_________________________________________________Tel_________________Cel___________________Data Nascimento______________
Email______________________________________________FaceBook___________

Cor ( )Pardo ( )Preto ( ) Branco ( ) Gênero ( ) F ( ) M ( ) Indígena ( ) Outros

Assinale com um X sua (s) Oficina ( s )

( ) Capoeira Angola ( ) Dança Afro ( ) Break ( ) Percussão ( ) Grafite ( ) mascaras africana ( ) Trança e Penteado Africano ( ) Turbante e Amarras ( ) Reutilização e Grafismos Indígenas

Local das Oficinas ( Núcleo de Dança Luciano de Jesus ) AV Amperes 365 Bairro de Lurdes Próximo a Igreja Católica 
Ligue 038 97409883 Vivo 38 91044369 TIM

E-mail   hilariobispo@yahoo.com.br


terça-feira, 25 de março de 2014

UNEGRO elege nova diretoria em Minas Gerais (2014)



Com uma forte presença quilombola, a UNEGRO elegeu sua nova diretoria para o período de 2014-2018 na Câmara Municipal de Itabira. Nessa 7ª Plenária Estadual da UNEGRO estiveram presentes o vice-prefeito de Itabira, Ronaldo Calixto (PV), o vereador Batatinha (PSDB), Marinete Nunes da Seção do Negro da Prefeitura de Itabira, José Norberto do Centro Cultural do Carmo e Zito Vieira representando a Direção Estadual do PCdoB-MG, além de diversas associações e entidades dos movimentos  sociais, entre elas o Sindicato dos Vigilantes e diretores da CTB. O prefeito de Itabira, Damon Sena (PV) e o vereador Gilson Reis (PCdoB-BH) justificaram ausência.
A nova diretoria já começa os trabalhos com um ousado plano de lutas cujas são bandeiras envolvem temas gerais e temas específicos da luta pela igualdade no Brasil, como a redução da maioridade penal, o fim do fator previdenciário, a participação nas manifestações e por melhorias nas comunidades quilombolas não só de Itabira mas também em outras regiões mineiras.

Projeto eleitoral 
Por decisão da plenária a UNEGRO vai convocar uma reunião para tratar da participação de sua militância nas eleições de 2014 e propor um conjunto de opiniões políticas sobre os rumos da conjuntura nacional. Além disso, nessa reunião UNEGRO vai decidir quais candidaturas apoiará tanto na majoritária quanto na proporcional.

 Clóvis Moura
Para homenagear o sociólogo marxista Clóvis Moura a plenária aprovou a criação do Prêmio Clóvis Moura para agraciar pessoas,  físicas e jurídicas, que contribuíram para a luta pela igualdade racial em Minas Gerais

Encontro Nacional de Mulheres da UNEGRO
Finalizando as atividades da 7º plenária estadual, a UNEGRO criou uma comissão para viabilizar a participação da delegação de Minas Gerais no Encontro Nacional de Mulheres da UNEGRO, em Vitória no Espírito Santo, em julho. E para presidir a entidade, foi reeleito o membro do Núcleo da UNEGRO na UFMG, Alexandre Braga. 

       


Colóquio povos e comunidades tradicionais ( UNIMONTES - MG )

PROGRAMAÇÃO

22 ABRIL DE 2014 (Terça-feira)


De 10:00h às 17:00h
Credenciamento e Recepção dos participantes
Mostra Cultural ( música, artesanato, sementes e arte)
Exibição de documentários etnográficos (Projeto OIA / Unimontes)
Lançamento de Livros (Opará / Unimontes)
Exposição Fotográfica (Elisa Cotta)

14:00h - Reunião de Trabalho:
Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais
Grupo de Trabalho Conflitos nas Savanas

17:00h - Apresentação Artístico-cultural:
18:00h - Abertura Oficial

18:30h – Mesa de abertura: A contribuição dos povos e comunidades tradicionais para outro desenvolvimento.

Coordenação: Rômulo Soares ( Coordenador geral do Colóquio / Unimontes)
Aderval Costa Filho (UFMG)
Braulino Caetano (Representante dos Povos e Comunidades Tradicionais)


23 ABRIL DE 2014 (Quarta-feira)

8:00h - Mesa 1: Identidade,Território e Cultura

Coordenação: João Batista de Almeida Costa (Unimontes)
Andréa Zhouri (UFMG)
Dieter Gawora (Universidade de Kassel - Alemanha)
Winnie Overbeek - Representante WRM
10:30h - Espaços de Diálogos 1: Identidade,Território e Cultura
(Trabalhos Científicos e Relatos das Comunidades Tradicionais)
Coordenadora do Grupo 1: Felisa Anaya (Unimontes)
Coordenadora do Grupo 2: Arneide Bandeira Cemin (Universidade de Rondônia – UNIR)

12:00h Almoço
Contato: (38) 9915-9240

A situação LGBT na África





    18/MAR/2014POR BUSANGOKWAKHE DLAMINI - PAMBAZUKA NEWS
A equipe editorial do Pambazuka Newsestá de acordo que a situação LGBTI na África é uma questão importante e urgente , observando o grande número de pessoas que continuam a sofrer discriminação gratuita, intimidação , repressão e violência. Os efeitos da prevalência de tal discriminação, intimidação , repressão e violência não se restringe apenas ao LGBTI , como evidenciado no que se tornou conhecido como a " Declaração de Viena ".
A organização , Religiões pela Paz , em sua nona Assembleia Mundial , realizada em Viena, Áustria , em novembro de 2013, veio com o tema: " Acolhendo o Outro" como a sua visão multi-religiosa pela paz nos próximos anos . Religiões para a Paz está convencido de que trabalhar para a paz é um chamado. Esta chamada é incorporada nas religiões que cada um de seus membros pertence. A paz é uma parte importante de todas as religiões.

Religiões pela Paz comprometeram-se a esta chamada de " acolhimento do outro , " sentindo os níveis de depressão e violência causada por não acolher atitudes que tornam Paz inatingível. Eles argumentaram que cada uma das tradições de fé diversas representados nas cimeiras anteriores haviam chegado a uma conclusão que havia elementos mais unindo do que os de divisão dentro de religiões. Eles, assim, comprometeram-se a acção comum de " acolhimento do outro ", como o coração de sua visão multi- religioso de paz, de perceber os valores profundamente arraigados e amplamente compartilhados como uma base sólida para construir em cima.Tradições de fé compartilhar o valor da paz . Reafirmou os elementos positivos da Paz compartilhados pelas respectivas tradições religiosas e recommitted à chamada à solidariedade para com os mais vulneráveis, e promover a justa e harmoniosa das sociedades.

Religiões pela Paz líderes e representantes de pessoas de fé se reuniram em Viena abrir sua declaração , confessando a culpa dos crentes individuais que traíram os ensinamentos de paz de suas crenças. Isto sugere que os ensinamentos de paz existem em todas as religiões e são compartilhados como o valor comum. Este valor , no entanto , é muitas vezes traído .Essa traição é evidenciada por alguns líderes religiosos durante a visita do presidente Barack Obama para o continente africano. Os líderes religiosos em África se diz terem fortemente repreendido apelo do presidente Obama para descriminalizar as relações homossexuais. Presidente Obama tinha sugerido que as nações africanas conceder proteção igual a todas as pessoas independentemente da sua orientação sexual. Ele confirmou isso como um princípio que se aplica universalmente . Isto é dito para ter esfregado os líderes religiosos da maneira errada, alguns dos quais vêm de países que consideram a homossexualidade um crime.Presidente Obama avançou compartilhada bem -estar, mas foi repreendido. O que é notável é que até mesmo tradições de fé cujos seguidores nunca sentar-se em torno do mesmo fogo parecem convergir para a conivência de uma denúncia veemente do GLBTIs , não no bem-estar comum . A traição , mais uma vez , torna-se evidente aqui.

A traição é mais claramente evidenciada pelo líder religioso que coordena a Ação Ecumênica para a Paz em África. Ele afirmou que o presidente Obama representava forças externas que querem impor a sua vontade sobre a África . Ele defendeu que o dever de líderes religiosos é de falar em tais casos , ainda mais em face da homossexualidade , o que desafia a ordem de Deus. Este líder religioso está claramente trair a paz que ele afirma ser de coordenação. Qual comando de Deus está sendo desafiado por homossexualidade continua difícil dizer. Poderia não ser baseada em algumas interpretações estreitas da Bíblia?
Para facilitar a consulta, o Ponto de Vista por Christina Rees no Tablet de 19 de Outubro 2002 é feito uso . Não é de notar como as interpretações bíblicas e entendimentos impacto no comportamento . Interpretações estreitas e entendimentos poderia levar a um comportamento vergonhoso que milita contra os valores bíblicos fundamentais , bem como enfraquecer o Corpo de Cristo e do ministério , a missão eo testemunho da Igreja.

Interpretações estreitas , muitas vezes emanam de confusão entre a autoridade e interpretação das Escrituras. Embora a Escritura é autoritário, não se segue que só há uma interpretação fiel e válido em qualquer questão . Depois de Jesus ter ascendido , os próprios discípulos aproximaram-se novos entendimentos sobre regras alimentares , circuncisão , eo enorme questão de estar disposto a aceitar que a oferta de salvação de Cristo estendida para todos, incluindo os gentios desprezados . Neste dia e idade, a oferta de salvação inclui os GLBTIs desprezados.Os cristãos acreditam no Espírito Santo, como a terceira pessoa do Deus Uno e Trino. Isso dificulta o trabalho em curso do Espírito Santo na Igreja a insistir na compreensão imutável e indiscutível de alguns seres humanos em suas interpretações das Escrituras . A Igreja , acima de tudo, precisa ouvir a Deus, se é para manter a sua identidade como um farol de luz, que é uma das principais razões para a existência da Igreja.

Confessando que alguns crentes religiosos trair os ensinamentos de paz de suas crenças, as Religiões para a Paz delegados continuaram a comprometer-se a uma cultura de paz que os avanços compartilhada bem-estar , baseada na cura comum , sala de estar comum e de segurança comum . A Assembleia manifestou uma profunda preocupação e chamou a atenção para o que considera uma nova ameaça à paz , ou seja, a hostilidade crescente em direção ao "outro". Isso eles percebido como uma extensão da intolerância , que muitas vezes toma a forma de violência.

Respectivas comunidades religiosas podem se tornar centros de educação sobre o " acolhimento do outro ", invertendo , assim, a crescente onda de hostilidade para com o "outro". Animosidade social contra indivíduos e grupos , alimentadas pelo medo e intolerância do "outro", ameaça a dignidade humana, boa governação e compartilhada bem-estar, eles afirmaram .

A Cimeira apelou aos líderes religiosos e pessoas de fé para reconhecer o valor de lideradas por jovens , iniciativas populares destinadas a " acolher o outro" e promover a paz sustentável. As comunidades religiosas deve enfrentar hostilidade para com o "outro" tanto como uma ameaça urgente e também uma chave para enfrentar outras ameaças críticas à paz, eles mantiveram .Visão multi- religiosa da Cúpula da Paz incluiu a chamada para todas as pessoas de fé para " acolher o outro . " Esta visão é incorporado e compartilhado por chamada diversas "tradições religiosas a profunda solidariedade ativa com e empatia para o " outro ". Esta chamada , para a Cúpula , está enraizada em um espírito de unidade , como um valor profundamente realizada e amplamente compartilhada entre os religiosos comunidades. Este " Acolhendo o Outro" é considerado como significando respeito aceitação do outro. Para os adeptos das religiões tradicionais africanas , esta chamada está enraizada também no espírito do Ubuntu.

" Acolhendo o outro" ambos os fortalece e vai além da tolerância , chamando cada comunidade religiosa para se solidarizar com a dignidade , a vulnerabilidade eo bem-estar do "outro ", com toda a força de seus respectivos ensinamentos espirituais e morais. " Acolhendo o Outro" chama os membros a trabalhar para promover o florescimento pleno da dignidade humana através do desenvolvimento integral do ser humano. " Acolhendo o Outro" convida todas as pessoas em co- construção , co- carinho e co- previdente administração do bem-estar comum , que inclui respeitar a natureza e desenvolvimento em harmonia com ela . " Acolhendo o Outro" envolve ver a si mesmo no outro. " Acolhendo o Outro" rejeita cumplicidade na destruição da Terra , o que agrava os desastres e sofrimento humano.

Religiões pela Paz claramente não está envolvida na luta pelos direitos das pessoas LGBTI . Sua preocupação com a crescente hostilidade ea chamada para todas as pessoas de fé para ser acolhedor, e para encontrar pontos em comum em vez de diferenças , aponta na direção certa para o futuro da LGBTI , especialmente na África, onde eles tendem a ser vistos como criminosos.

*Dr. Pe. Busangokwakhe Dlamini é um ativista, um educador e um conselheiro pastoral das pessoas LGBT na província de KwaZulu -Natal. Venho de Ndwedwe , que está situado em terra , no norte de Durban. Dirijo uma organização sem fins lucrativos chamada Siyakhana - Comunidade Ecumênica do Paráclito , que atende às necessidades psico- espirituais das pessoas LGBT. Eu ensino escrita eficaz na Universidade de KwaZulu -Natal, Pietermaritzburg .

sábado, 18 de janeiro de 2014

A expansão militar árabe na África.

A expansão árabe na África e os Impérios Negros de Gana, Mali e Songai (sécs. VII-XVI)
Ricardo da COSTA

In: História Afro-brasileira
(ISBN 85-88909-20-0 - módulo I).

In: NISHIKAWA, Taise Ferreira da Conceição. História Medieval: História II.
São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2009, p. 34-53
(ISBN 978-85-88639-90-4)
(para o curso de Educação à Distância da Unopar Virtual).

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso,
Louvado seja Deus, Senhor do Universo,
O Clemente, o Misericordioso,
Soberano do Dia do Juízo.
Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos ajuda!
Guia-nos à senda reta,
À senda dos que agraciaste, não à dos abominados, nem à dos extraviados.
(Alcorão, A Abertura, 1ª Surata).

I.                   A expansão militar
Existem muitos fatores que contribuíram para a incrível expansão árabe do século VII que partiu da Península Arábica em direção ao Magreb – que quer dizer “ocidente” em árabe. A baixa produtividade do solo da Península e o desejo de ter uma terra cultivável, somado a uma população em crescimento; o enfraquecimentos dos reinos de Bizâncio e da Pérsia, que se encontravam devastados pelas guerras e tinham suas províncias em franco processo de declínio (o imperador bizantino Heráclio [610-641] assistiu impotente à perda das províncias que havia recentemente conquistado) (ANGOLD, 2002: 50); possíveis afinidades inter-étnicas (a Síria e a Mesopotâmia tinham tribos árabes), e até o uso de camelos nas batalhas em campo aberto por parte dos exércitos muçulmanos. (HOURANI, 1994: 40)
Tudo isso pode ter contribuído para as sucessivas, rápidas e espantosas vitórias da espada do Islã, mas definitivamente o motivo maior e mais poderoso nas mentes de então foi a unidade política e principalmente espiritual promovida e realizada por Maomé (570-632).
Logo após a morte do Profeta, em 634 a Península arábica foi definitivamente unificada e os primeiros exércitos islâmicos foram enviados para o exterior. Seus sucessores, os primeiros califas rashidun(os “califas corretamente orientados”) (HOURANI, 1994: 459) – a palavra califa significa “representante” – foram os líderes militares que organizaram as bases pelas quais o império pôde crescer.

In: Atlas Histórico. Barcelona: Editorial Marin, 1992, p. 44.
As tropas árabes que realizaram essa expansão tanto para o leste quanto para o oeste eram disciplinadas e coesas. Definitivamente não eram bárbaras. Conta a tradição que Abu Bakr (623-624), o primeiro califa, sogro de Maomé, teria dito às suas tropas:
Sede justos, sede valentes; morrei antes de render-vos; sede piedosos; não mateis nem velhos, nem mulheres, nem crianças; não destruais árvores frutíferas, cereais ou gado. Mantende vossa palavra, mesmo aos vossos inimigos; não molesteis as pessoas religiosas que vivem retiradas do mundo, mas compeli o resto do mundo a se tornar muçulmano ou nos pagar tributo. Se eles recusarem estes termos, matai-os. (citado em DURANT, s/d: 171).
Assim, enquanto Khalid ibn al-Walid, general supremo de Abu Bakr, conquistava o Iraque e Damasco ao norte, o comandante Amr ibn al-As, outro recém-convertido e veterano das guerras sírias, partiu de Gaza, tomou Pelúsio, Mênfis e, finalmente, Alexandria, após um sítio de vinte e três meses, em 641. O trigo do Egito era muito necessário para Medina, e o porto de Alexandria oferecia um ponto seguro para a expansão marítima islâmica. (PREVITÉ-ORTON, 1976: 337)
Os cristãos monofisistas do Egito (que acreditavam em uma só natureza do Cristo), cansados das perseguições religiosas de Bizâncio, receberam os muçulmanos de braços abertos – de maneira semelhante como as comunidades judaicas na Península Ibérica fariam em 711. A propósito, a estória que Amr ibn al-As teria ordenado a destruição da Biblioteca de Alexandria é considerada hoje uma versão completamente destituída de fundamento. (LEWIS, 1990: 63)
Amr administrou muito bem o Egito. Apesar de ter governado com base em duros tributos cobrados da população local, ele reparou canais e, a partir de seu acampamento, construiu em 642 uma nova capital, de nome al-Fustat (que significa “a tenda”): mais tarde ela se chamaria Cairo.

De posse desse novo potentado, e preocupados com um possível ataque bizantino vindo do ocidente, a partir de 647 os muçulmanos decidiram prosseguir em seu assalto ao norte da África. Seguindo a costa africana, partiram então para o oeste, liderados por Ibn Sad, emir do Egito. Um poderoso e organizado exército marchou através do deserto até a cidade de Barka (Barca, atualmente na Líbia), tomando-a de assalto em 643-644. Dali avançou praticamente sem nenhuma resistência até as proximidades de Cartago, já na Tripolitânia.
Ao sul da Túnis moderna (na Tunísia), o comandante Okba ibn Nafi construiu um acampamento na areia, em 670, fundando assim uma das maiores cidades do Islã bem no coração da África romana, Kairuan (Karouan ou Cairuão) – o “lugar do descanso”, para sustar as contra-ofensivas dos bizantinos (observe a característica do surgimento da cidade islâmica nessa expansão militar: ela, via de regra, teve origem em um acampamento militar). Esse avanço até a Tripolitânia e a fundação de Kairuan foram muito importantes para a expansão do Islã. Dali, Okba fez incursões e massacres contra as tribos berberes, que se refugiaram nas montanhas do Atlas.
Os berberes eram tribos nativas que viviam espalhadas por toda a África do Norte. Segundo o cronista muçulmano Ibn Khaldun (c. 1332-1395), os berberes eram quase totalmente nômades,
...gentes que vivem em tendas e que viajam no lombo do camelo, e se instalam nas alturas das montanhas (...) No deserto, a maioria da população mantém suas genealogias, porque, de todos os laços que servem para vincular um povo, o de sangue é o mais próximo e de maior força (...)

Os povos que experimentam a influência desse sentimento preferem sempre a vida do deserto à das cidades... (IBN JALDÚN, 1997: 633).

Em 681, Okba atingiu o Atlântico, mas os berberes se esqueceram de sua hostilidade secular contra aos romanos e decidiram combater esse novo invasor. Sob as ordens do príncipe Koceila (Kossaila ou Kossayla), uma parte dos berberes derrotou Okba ibn Nafi (683), saqueou Kairuan e fez o exército árabe retroceder de volta para Barka. Contudo, outra parte dos berberes abraçou o Islamismo, fato que enfraqueceu o exército de Koceila.
Este, recuando para Barka em 689, foi surpreendido e massacrado por uma força bizantina (PIRENNE, 1970: 136), e o exército árabe, por sua vez, perseguido pelas forças berberes chefiadas por uma misteriosa e lendária rainha-sacerdotisa zenata de nome Kahina (ou Kahena), foi obrigado a retornar derrotado de volta ao Egito – os zenatas ou zanagas eram uma etnia berbere originária do sul do Marrocos (KI-ZERBO, s/d: 129).
Hasan, governador do Egito, decidiu contra-atacar: retomou a ofensiva, reconstruiu Kairuan e apoderou-se definitivamente de Cartago, em 698. Os cartagineses fugiram e a cidade antiga foi substituída por uma nova, ao fundo do gloso: Túnis. Seu porto, Goulette, tornou-se a partir de então uma das grandes bases navais islâmicas do Mediterrâneo.
Sim, a expansão islâmica também abrangia os mares: desde o califa Moawiah (660) os muçulmanos dispunham de uma frota, e com ela também alargaram seu poder e invadiram as ilhas de Chipre, Rodes, Creta e Sicília, além de transformarem o porto de Cizico (Cyzicus), na Ásia Menor, em uma importante base naval islâmica de onde passaram a assediar Constantinopla (PIRENNE, 1970: 134-135).

Assim, além do avanço para o oeste pelo norte da África – e simultaneamente a ele – os muçulmanos se apoderam gradativamente de posições marítimas chaves no Mediterrâneo. A resistência berbere foi desfeita e a rainha-sacerdotisa Kahina teve a cabeça cortada e enviada como troféu ao califa no Egito.

II. A fragmentação do Norte da África em potentados
No final do século VII, os muçulmanos concretizaram definitivamente sua expansão no norte da África. Na região mais setentrional, outro comandante árabe, Mousa ibn Noçayr submeteu o Magreb (Marrocos) e impôs definitivamente o Islamismo às tribos berberes. Com isso, a África ficou dividida em três províncias:
1) O Egito, com sua capital em al-Fustat (próxima de Cairo);
2) Ifriqiya (Tunísia), com sua capital em Kairuan e
3) Magreb (Marrocos), com sua capital em Fez.
Durante cerca de cem anos, os emires dessas três províncias reconheceram os califas do Oriente como seus soberanos. No entanto, devido às longas distâncias e as dificuldades naturais de comunicação – que só aumentaram com a transferência da capital do Império para Bagdá, essas províncias gradativamente tornaram-se reinos independentes no século IX, cada um com uma dinastia. Foram elas:

1)Dinastia tulunida (868-905),no Egito e na Síria;
2) Dinastia aglábida (800-909), em Kairuan (dominando a Tunísia, a região oriental da Argélia e a Sicília) e
3) Dinastia idrísida (789-926) no Magreb.
No Egito, a dinastia tulunida durou apenas duas gerações de monarcas. Fundada por Ahmad ibn-Tulun (868-884), filho de um escravo turco, com ela, o Egito passou por um rápido renascimento cultural, tanto nas artes quanto no saber. Ibn Tulun construiu uma nova capital (Qatai, subúrbio de al-Fustat), palácios, banhos públicos, um hospital, um aqueduto ainda de pé e a grande mesquita Ibn Tulun, hoje uma homenagem do tempo a seu governo.


No entanto, seu filho Khumarawayh (ou Khumavaraih, 884-895) transferiu a energia que herdou do pai totalmente para a luxúria: tributou pesadamente seu povo para revestir seu palácio de ouro e construir uma piscina de mercúrio, onde sua cama com almofadas (também de ouro) e sempre cheia com seu harém pudesse flutuar... Apesar disso, Khumarawayh foi reconhecido como governador do Egito, da Síria e da Mesopotâmia do Norte, casando sua filha com o califa al-Mutadid-Mutadid. O poder dos tulunidas cai com seu filho Harun (896-904); outra dinastia turca, os ikshididas (935-969) tomou-lhes o poder. (Islamic Architecture – Tulunids)

Na Ifriqiya (Tunísia), em 800, Ibrahim ibn al-Aghlab fundou a dinastia aglábida, que governou a região até 909. Embora fossem tecnicamente submissos aos califas abássidas, os aglábidas eram independentes. Eles foram responsáveis pela construção da grande mesquita e suas muralhas, e transformaram sua capital em um importante centro cultural, onde as ciências religiosas e a poesia puderam florescer.
Os aglábidas criaram também uma marinha e desenvolveram técnicas agrícolas, de irrigação e de arquitetura, além das artes. Grande foi o florescimento das atividades intelectuais. Nesse período, destacam-se Imam Suhnun, Assad ibn al-Furat (no Direito) (SOUSA, 1986), Yahia ibn Sallam (na Exegese do Alcorão) e Ibn al-Jazzar (na Medicina). (Os Aglábidas) Os aglábidas também conquistaram e dominaram a Sicília (827-878); dali, em 846, um exército aglábida conseguiu atacar e saquear Roma. Essa ilha permaneceu sob o domínio muçulmano mais de cem anos e só foi reconquistada pelos cristãos em 1091.

Trata-se de um clássico exemplo arquitetônico da fortaleza ribat. O núcleo dessa construção data do período 770-96 e seu último estágio dos anos 821-22. Sua construção é atribuída ao aglábida Ziyadat Allah. Consiste em um cerco fortificado com uma entrada e torres nos cantos e no meio das paredes. O pátio é cercado por dois níveis de muros. O lado do sul do segundo assoalho é ocupado por uma mesquita com um mihrab no centro (o mihrabem uma mesquita é o nicho decorado que indica a direção [qibla] de Meca. MIQUEL, 1971: 556). Para a questão do ribat, ver adiante nosso item VI.

No entanto, uma força religiosa tomaria Ifriqiya de assalto: os ismaelitas. Por volta de 905, Abu Abdala surgiu naquele reino pregando uma doutrina que se propagaria por todo o mundo árabe, aDoutrina Ismaelita dos Sete Imãs. Com a adesão dos berberes, ele conseguiu depor a dinastia aglábida e saudar Obeidala ibn Muhammad como al-Mahdi (ou Madi), o “líder justo”, aquele que viria destruir a tirania e estabelecer a justiça. Contudo, assim que chegou ao poder, uma das primeiras medidas de Obeidala foi ordenar a morte de Abu Abdala.
O sucesso da tomada do poder pelos ismaelitas fez surgir uma nova e importante dinastia: os fatímidas (se diziam “fatímidas” porque se consideravam descendentes de Fátima, filha do Profeta). Lá mesmo na Tunísia, os exércitos fatímidas se prepararam para a conquista do Egito, primeiro passo para se chegar ao império do Oriente. (LEWIS, 2003: 43)
*
Aglábidas e fatímidas devolveram à África do Norte um pouco da prosperidade dos tempos da Roma imperial. No século IX, os muçulmanos abriram novas rotas, desenvolveram o comércio tanto com o Islã Oriental quanto com a Espanha e as regiões transaarianas (como veremos a seguir), e trouxeram novas técnicas para a arte do couro, das tinturas e dos perfumes. Ao se expandirem até o Egito, tomando-o dos turcos ikshididas, os fatímidas unificaram todo o norte da África. Transferiram-se então para a cidade de Qahira (“A vitoriosa”, isto é, Cairo) ao nordeste de Qatai, chegando posteriormente a ter o controle sobre toda a Arábia e a Síria.

Os fatímidas tornaram-se rapidamente os reis mais ricos de seu tempo. No entanto, a liberdade cultural e religiosa dos primeiros tempos deixava pouco a pouco de existir: com o califa al-Haquim (996-1021), uma série de perseguições contra judeus e muçulmanos teve início – até mesmo a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, foi destruída – fato que deu início à pregação das cruzadas. Apesar disso, a dinastia ainda floresceu culturalmente com o longo reinado de Mustansir (1036-1094), filho de uma escrava sudanesa.
Mustansir construiu um belo pavilhão e viveu uma vida de música, vinho e conforto. Ele disse: “Isto é mais agradável que contemplar a Pedra Preta, ouvir o zumbido dos muezins (o encarregado do apelo à oração) e beber água impura”. (citado por DURANT, s/d: 258) Após sua morte, o império se fragmentou em várias facções (berberes, sudanesas e turcas). Ifriqiya e Marrocos já haviam se separado, a Palestina se rebelou e a Síria foi perdida.

III. Natureza e força da civilização islâmica no Norte da África
Todas aquelas três cortes dos reinos africanos – do Cairo, de Kairuan e de Fez – protegeram e desenvolveram as artes – a música, a filosofia, a poesia, a arquitetura, a pintura e as artes menores (azulejos, estampas em tecidos, vasos de cristal, etc.). Em Kairuan, em 670 foi erguida a maravilhosa mesquita de Sidi Oqba, restaurada sete vezes. Seus claustros ainda hoje são sustentados por colunas coríntias das ruínas de Cartago. A riqueza da arte de Sidi Oqba tornou Kairuan a quarta cidade santa do Islã – chamada de “um dos quatro portões do Paraíso”.

Com um púlpito entalhado, o mais antigo minarete quadrado e maciço do mundo (o minarete é a torre da mesquita), e seus interiores rodeados de pilastras coríntias iluminadas com velas, a mesquita de Sidi Okba é um marco da força da arquitetura e da fé islâmica (DURANT, s/d: 258), e artisticamente contrasta maravilhosamente com a imensidão e o silêncio do deserto – observe que um dos pilares da contemplação estética é justamente observar a inserção da obra arquitetônica no espaço natural em que ela foi construída, e essa interação deve ser levada em conta quando da fruição artística.

Ainda em relação às artes desse período na África do Norte, é importante destacar que os muçulmanos desenvolveram com intensa paixão e enorme paciência as chamadas “artes menores”. Azulejos envernizados, louças de barro, vidros, vasos de cristal, caixas ricamente decoradas com incrustações de marfim, osso ou madrepérola (tanto na madeira quanto no metal), tinteiros, tudo com motivos geométricos. Enfim, todas as manifestações da criatividade artística humana brotaram esplendorosamente na África do Norte islâmica entre os séculos VII-XI.

III.1. O ensino e as letras
É sabido que o mundo muçulmano na Idade Média estimulou muito a educação e o estudo das letras. No final do século X, a biblioteca de Cairo já era uma das maiores do mundo conhecido. O Islão patrocinava muito o saber: por exemplo, em 988 Iacub Qilis convenceu o califa egípcio Aziz a custear a educação para estudantes na mesquita de el-Azhar.
Era o início do ensino público – logo seguido pelas universidades européias (embora ali os estudantes custeassem os gastos). O estudo sistemático em el-Azhar atraiu universitários de todo o mundo muçulmano, processo que antecedeu em um século o movimento universitário na Europa.

O califa al-Haquim criou no Cairo uma instituição chamada Casa de Sabedoria (Dar al-Ilm), que abrigava o ensino da teologia xiita dos ismaelitas, da astronomia e da medicina. Haquim também doou sua coleção de manuscritos à Casa da Sabedoria “para que todo o mundo possa vir para ler, transcrever e se instruir”. (MANGUEL, 1997: 47) Ali ainda havia um observatório astronômico, onde trabalhou o maior dos astrônomos muçulmanos, o egípcio Abu’l Hasan ibn Yunus (†1009) (RONAN, 2001: 100-101).

E de todos os nomes que brilharam dentre os doutores do Islã nesse período, o mais conhecido é o de Al-Hazin. Matemático muçulmano nascido por volta de 965 em Basra, ele tornou-se famoso por ter escrito um importante tratado de ótica (Kitab al-Manazir). O primeiro a perceber a capacidade aumentativa do vidro parece ter sido Sêneca († 65 d. C.), observando objetos através de bolas de vidro cheias d’água.
Mas foi Al-Hazin, em seu Livro de Ótica, quem deu um passo importante e definitivo ao trabalhar a ação dos “corpos lenticulares”. (FRADA) Seu problema básico fora encontrar a imagem de um ponto brilhante quando refletido fora de um círculo. Isso envolvia conseguir encontrar um ponto preciso (A) na circunferência de um círculo.

Al-Hazin ainda observou a forma de meia-lua da imagem do Sol durante os eclipses na parede oposta a uma pequena cavidade feita nas folhas de janelas: é a primeira menção conhecida da câmara-escura, base da fotografia. Até o tempo de Kepler e da Vinci, todos os estudos europeus sobre a luz basearam-se na obra de al-Hazin (DURANT, s/d: 261).
Por fim, o efeito mais duradouro da expansão do Islã no Norte da África foi o quase completo desaparecimento do cristianismo. É bastante provável que os habitantes latinos das cidades tenham emigrado para a Sicília e Espanha. Todas as populações, especialmente os berberes, adotaram com tal entusiasmo o Islã que expandirem-no para o sul do Saara, como veremos a seguir. Assim, o Mediterrâneo deixou de ser uma rota pacífica e romana como o era no mundo antigo para se transformar em um mar de fronteira bélica de religiões e civilizações opostas. (PREVITÉ-ORTON, 1976: 337)
IV. Civilizações negras ao sul do Saara (1): a Terra dos Maqzara e o reino de Tekrur

No extremo oeste da África setentrional, entre os atuais países de Mali e da Mauritânia, ao longo do rio Níger até mais a oeste, na escarpa do Tagant, com limite ao sul nos rios Senegal e Bakoy, desenvolveram-se as primeiras civilizações negras conhecidas: os Maqzara, o reino de Tekrur, e os famosos Impérios de Gana (Wagadu), ou o “Império do Ouro”, como ficou sendo chamado, e o de Songai (ou de Gao). Essas culturas negras que giravam em torno do Baixo Senegal (nome de toda essa região) foram o resultado de um desenvolvimento autóctone bastante recuado (e de natureza pagão-animista), iniciado provavelmente na era cristã, aliado ao avanço berbere-islâmico em direção ao sul do Saara no século IX.
Essa expansão berbere havia se dirigido tanto no leste ao sul do Egito, para obter o controle das minas de ouro do Sudão, quanto no oeste ao sul de Magreb, e aqui no Baixo Senegal a expansão basicamente tivera como motivação o desejo de dominar as rotas cada vez mais desenvolvidas dos tráficos de ouro, de sal e de escravos, este último um tráfico que nunca parou de crescer desde então até meados do século XIX (KI-ZERBO, s/d: 130). O tráfico de escravos – escravos que eram utilizados em sua maior parte no serviço doméstico ou como soldados – acontecia tanto no sentido do sul para o norte do Saara quanto o inverso (DAVIDSON, 1992: 146).
Apesar das dificuldades naturais de se atravessar o deserto, muitas caravanas de muçulmanos cruzavam o Saara a oeste para comerciarem escravos, sal, cavalos e metais (ouro e cobre) com as populações negras. Os berberes também compravam dos negros marfim, peles de animais, plumas de avestruz e sementes de cola (com cafeína); em troca, traziam cobre, espadas decoradas de Damasco, louças e talheres finos.
Partindo-se do Magreb (de Fez, mais a oeste, ou mesmo de Trípoli), os viajantes islâmicos utilizavam quatro rotas conhecidas através do deserto para chegar a quatro importantes pontos de comércio ao sul. Da esquerda para a direita:
1) De Awdaghost e Tekrur (na Mauritânia atual) para Tindouf, até Marrakech, Fez e Túnis;
2) De Tombuctu (no Mali) também para Fez e Túnis, mas passando por Taouden;
3) De Gao (também no Mali) para Trípoli, passando por Ghadames;
4) De Agadez, mais ao centro, no Níger, também para Trípoli, passando por Ghadames ou por Murzuk.


Graças a essas regulares rotas de comércio transaarianas estabelecidas pelos berberes islamizados é que se tem notícia escrita das civilizações negras ao sul do Saara. Um viajante e geógrafo muçulmano chamado al-Bakri (século XI) escreveu a principal fonte para essa região, um livro chamado Descrição da África (de 1087). Abu Ubayd al-Bakri, filólogo, poeta, geógrafo, historiador e erudito religioso, viveu em Qurtuba (Córdoba), Al Mariyya (Almeria) e Ishbiliya (Sevilha), onde morreu em 1094. Ele ficou conhecido por seus comentários a várias obras, principalmente o Sharth Kitav al amthalde Abu Ubayd al-Qasim ibn Sallam, e o Al 'Ali fi sharh al amáli, de al-Qali. A intenção desses comentários muito difundidos na Idade Média era esclarecer os casos em que o significado desejado por um conhecido autor não estava claro. Então o comentarista explicava as expressões pouco comuns e fazia as necessárias correções para os novos e futuros leitores. (Poetas andalusíes sevillanos)
Embora al-Bakri, da mesma forma que Tácito em sua obra Germânia (no século I), nunca tenha ido pessoalmente à região que descreve em sua obra, ele conversou com viajantes e comerciantes, além de consultar obras de geógrafos muçulmanos, e pôde assim fazer um precioso registro de segunda mão sobre aquelas culturas negras. (KI-ZERBO, s/d: 131-141; Al-Bakri’s online guide to Ghana Empire)

In: KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 137.
Assim, tomando como base esse depoimento muçulmano (e de outros, como veremos), sabemos que, já a partir do século IX, uma confederação de tribos berberes sob o comando de Tilutan (836-837) – os lemtunas, os mesufas e os djoddalas – conseguiram impor sua autoridade sobre vários grupos negros e negro-berberes instalados ao redor de um povoamento chamado Awdaghost, que ficava bem no centro da região do Baixo Senegal. Todas essas culturas próximas a Awdaghost tinham uma defesa natural que as protegiam de ataques, as escarpas do Tagant, que formam um grande semicírculo natural protetor naquela região.
Outro escritor islâmico, Al-Idrisi (Abu al-Idrisi, muçulmano de Ceuta, no Marrocos, educado em Córdoba, na Espanha) (RONAN, 2001: 113) nos informa que o nome desse reino era País de Qamnuriya(Mauritânia) ou Terra do Maqzara dos Negros (Ard Maqzarati es Soudan). Bem no centro da rota do sal, de Buré ao sul até Teghazza, esse reino teria tanto no sul quanto no norte um povoamento concentrado em um cinturão de cidades: ao sul, Awlil, Sila, Tekrur, Daw e Barissa; ao norte Qamnuriya e Nighira. No entanto, na época da chegada dos berberes islâmicos, as rotas com o sul (Senegal) teriam desaparecido, restando o contato e comércio com o norte islâmico.
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Um pouco à esquerda do reino de Maqzara, havia outro importante reino negro, na trilha da famosa “rota saariana do ouro” (que passava por Walata e Sidjilmasa até Fez): era o reino do Tekrur. No século IX, esse reino era governado por uma dinastia peule vinda de Hodh: eram os Dia Ogo.

O Tekrur, segundo Al-Idrisi, era um reino com um soberano independente, que possuía tropas e muitos escravos, e era muito famoso por seu senso de justiça. Com um comércio ativo, o reino de Tekrur importava lã, cobre e pérolas do Marrocos e exportava ouro e escravos para o norte berbere-muçulmano.
IV.1. A escravidão negra
O tráfico negreiro não foi uma invenção diabólica da Europa. Foi o Islã, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental, o primeiro a praticar em grande escala o tráfico negreiro (...)

O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, nem a escravidão nem o comércio de escravos (os grifos são nossos. BRAUDEL, 1989: 138).
Aqui faço um breve parêntese para a questão da escravidão negra. Muitos séculos antes da chegada dos brancos europeus à África, as tribos, reinos e impérios negros africanos praticavam largamente o escravismo, da mesma forma os berberes e demais etnias muçulmanas. Imaginar os portugueses, castelhanos e italianos lançando seus marinheiros em caçadas aos negros no coração das florestas africanas não resiste ao menor exame histórico.
Pelo contrário, os europeus seiscentistas tinham verdadeiro pavor de deixar o litoral ou mesmo desembarcar de seus navios e avançar para longe da costa e capturar escravos. Estes eram trazidos pelos próprios africanos, que tinham grandes mercados espalhados pelo interior do continente, abastecidos por guerras entre as tribos, ou mesmo puro seqüestro aleatório. Isso pode ser facilmente comprovado, por exemplo, com a descrição do império de Mali feita pelo cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade Média, e o depoimento de al-Hasan (1483-1554) sobre Tumbuctu, capital do império de Songai, documentos que exporemos mais adiante.
Ademais, havia tribos africanas que praticavam sacrifícios humanos, naturalmente de escravos. Às vezes, para interromper a chuva, mulheres negras (e escravas) eram crucificadas.

Ao converter meia África, o Islamismo contribuiu muito para estimular ainda mais a escravidão, pois praticou-a desde cedo: antes mesmo de Maomé, já no século VI, mercadores árabes freqüentavam todos os portos da costa oriental da África, trocando cereais, carnes e peixes secos com tribos bantus por escravos. As populações negras não-muçulmanas também consideravam a escravidão um fato absolutamente normal (como veremos, normalmente os reis africanos tinham centenas de escravos como soldados – e em suas guardas pessoais!).

Manuscrito árabe n. 5847, fol. 105, Maqâma 34, Biblioteca nacional da França, Divisão oriental do Departamento de Manuscritos.
Por exemplo, nas minas de sal-gema de Targhaza (exatamente na rota do Tekrur em direção a Marrakech), milhares de negros morriam para prover uma caravana de camelos cada vez maior de ano a ano – por volta de 1200 eram entre cinco e seis mil camelos que transportavam esse sal para o sul.
Outro conhecido exemplo é o rei de Mali, Mansa Mussa (1312-1332): negro e muçulmano, quando chegou ao Cairo em peregrinação a Meca em 1324, trouxe consigo quinhentos escravos, também negros, cada um com uma bola de ouro na mão (tratarei mais adiante de Mansa Mussa) (HEERS, 1983: 79; DE BONI, 2003: 317-333).
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Por fim, a base alimentar do povo do reino do Tekrur era o milhete (um tipo de milho pequeno), peixe e leite (ROSENBERGER, 1998: 338-358). Vestiam lã (os mais poderosos) e algodão (a maior parte da população). Seu primeiro rei a converter-se ao Islamismo foi War Jabi Ndiaye. Com ele, todos os súditos também se converteram (Jabi Ndiaye morreu em 1040) (KI-ZERBO, s/d: 133).
V. Civilizações negras ao sul do Saara (2): o Império de Gana (c. 300-1075)

O reino de Gana é chamado assim por causa do título de seus soberanos. Era também chamado de Ugadu (país dos rebanhos). Nessa época, o clima era bastante úmido, o que favorecia a criação de gado e a agricultura. Por volta do século IX, viviam na região do Hodh e do Auker pastores de origem berbere e cultivadores negros sedentários que, com o passar do tempo, se mesclaram. Em 876, outro cronista muçulmano, Iacub, escreveu: “O rei de Gana é um grande rei. No seu território encontram-se minas de ouro e ele tem sob sua dominação um grande número de reinos” (citado por KI-ZERBO, s/d: 135).
V.1. Gana renasce na descrição de Al-Bakri
Em 970 o viajante muçulmano Ibn Hawkal viajou de Bagdá até a margem do rio Níger, e não hesitou em dizer do imperador de Gana: “É o mais rico do mundo por causa do ouro” (citado por KI-ZERBO, s/d: 133). Um século depois, outro cronista, Al-Bakri nos dá informações mais precisas, como disse, em sua obra Descrição da África (de 1087). É esse texto, essa fonte que a partir de agora abrimos espaço para descrever o reino de Gana. (Al-Bakri’s online guide to Ghana Empire)

A mesquita de Djenne era um dos principais centros de peregrinação islâmica nas regiões meridionais do Saara e a cidade um importante entreposto comercial entre a África do Norte e a África Sudanesa. Djenne fica localizada no centro-sul do Mali, próxima a um dos vales do rio Níger.
V.1.1. O reino de Gana
Al-Bakri nos conta:
O reino de Gana está povoado pelos povos de Soninke, que chamam sua terra de Wagadugu ou Wagadu. O nome Gana é o título do rei que governa aquele império. O Estado de Soninke é forte, e seu rei controla 200.000 soldados, 40.000 dos quais arqueiros que protegem as rotas de comércio de Gana.
O poder do rei de Gana provém do monopólio da enorme quantidade de ouro produzida em seu reino. Esta riqueza permite aos de Soninke construir e manter enormes cidades, além de uma capital com uma população estimada entre 15.000 e 20.000 habitantes. Soninke também usa sua riqueza para desenvolver outras atividades econômicas, tais como a tecelagem, a ferraria e a produção agrícola.


V.1.2. A capital de Gana
A capital de Gana é chamada Kumbi Saleh. A cidade consiste na reunião de duas cidades que se unem em uma planície, a maior delas habitada por muçulmanos e com doze mesquitas (ver imagem 28). Kumbi Saleh possui também um grande número de juízes e de homens instruídos. Ao redor de ambas as cidades há poços de água doce e potável, e próximos a eles, terras cultivadas com vegetais.
A cidade habitada pelo rei está a seis milhas da outra cidade (muçulmana) e é chamada de Al-Ghana. A área entre as duas cidades é coberta com casas feitas de pedra e de madeira. O rei tem um palácio e choças de formato cônico, cercadas por paredes. Na cidade do rei, não muito longe da corte de justiça real, há uma mesquita. Os muçulmanos que vêem em missões ao rei podem rezar ali. Há ainda uma grande avenida, que cruza a cidade de leste a oeste.

V.1.3. O rei de Gana
O rei adorna a si mesmo como se fosse uma mulher, usando colares ao redor do pescoço e braceletes em seus antebraços. Quando se senta diante do povo, fica sobre uma elevação decorada com ouro e se veste com um turbante de pano fino. A corte de apelação fica em um pavilhão abobadado, com dez cavalos estacionados e cobertos com um tecido bordado com ouro. Atrás do rei ficam dez pajens segurando escudos e espadas, ambas decoradas com ouro.
À sua direita ficam os filhos dos vassalos do país do rei, vestindo esplêndidas roupas e com os cabelos trançados com ouro. O governador da cidade senta-se na terra diante do rei e os ministros ficam do mesmo modo, sentados ao redor. Na porta do pavilhão estão cães de excelente pedigree e que dificilmente saem do lugar de onde o rei está, pois estão ali para protegê-lo. Os cães usam ao redor de seus pescoços colares de ouro e de prata cheios de sinos com o mesmo metal.
A audiência é anunciada pela batida em um longo cilindro oco que se chama daba. Quando os povos que professam a mesma religião se aproximam do rei, caem de joelhos e polvilham suas cabeças com pó, uma forma de mostrar respeito por ele. Quanto aos muçulmanos, eles cumprimentam-no somente batendo suas mãos. (Al-Bakri’s online guide to Ghana Empire).


Os tipos de “casas cônicas” descritas por Al-Bakri em sua obra ainda podem ser vistas no Mali, como mostra a fotografia acima da Vila de Songo, no Mali.
V.1.4. A economia e a justiça em Gana
O rei cobra o imposto de um dinar de ouro para cada carga de asno com sal que entra em seu país, e dois dinares de ouro para cada carga de sal que sai. (dinar era uma moeda de ouro criada pelos califas muçulmanos; seu equivalente em peso era o mitkal - 4,722 gramas).
Os impostos são cobrados também pelo cobre e qualquer outra mercadoria que entra e sai do Império. O melhor ouro do país vem de Ghiaru, uma cidade distante da capital 18 dias de viagem. Todas as peças de ouro que são nativas e encontradas nas minas do Império pertencem ao soberano, embora ele deixe o povo ter um pouco de ouro em pó, isso certamente com o conhecimento de todos. Sem essa precaução, o ouro não só se tornaria abundante como praticamente perderia seu valor.

Quando um homem é acusado de negar um crime, um chefe pega um barril fino de madeira ácida e amarga de provar e coloca nela um pouco de água. Depois disso, ele dá essa bebida ao réu para que a beba. Se o homem vomita, sua inocência é reconhecida e ele é felicitado. Se não vomita e a bebida permanece em seu estômago, a acusação é aceita e justificada.

Bandiagra: quatro mulheres da etnia dos dogons, com seus trajes típicos, em frente à mesquita, tendo à frente um sorridente homem com uma coroa e vestido com um tecido cor de vinho. Todos estão descalços. Observe o belo contraste entre as cores dos personagens e o tom amarelo-tijolo do cenário.
V.1.5. A religião em Gana
Al-Bakri nos conta:
Ao redor da cidade do rei há choupanas abobadadas e bosques onde vivem os feiticeiros, homens encarregados de seus cultos religiosos. Ali se encontram também os ídolos e os túmulos dos reis. Estes bosques são guardados: ninguém pode entrar ou descobrir seus recipientes. As prisões dos vivos também estão ali, e se alguém é aprisionado lá, nunca mais se ouve falar dele.
Quando o rei morre, constroem uma enorme abóbada de madeira no lugar do enterro. Então trazem-no em uma cama levemente coberta e colocam-no dentro da abóbada. A seu lado colocam seus ornamentos, suas armas, e os recipientes que ele usava para comer e beber. A serpente é a guardiã do Estado e vive em uma caverna que lhe é devotada. Quando o rei morre, seus possíveis sucessores se reúnem em uma assembléia, e a serpente é trazida para picar um deles com seu focinho. Essa pessoa é então chamada para ser o novo rei.
A descrição de Al-Bakri é sucinta e clara. A população de Gana, rodeada de hortas, pepinos, palmeirais e figueiras, vivia assim em uma espécie de oásis protetor na fronteira sul do deserto. Como disse acima, a mesquita de Djenne tornava a região um importante centro islâmico, com um comércio bastante próspero. Al-Bakri nos diz a respeito: “A criação de carneiros e de bois é aí particularmente próspera. Por um simples mitkal (moeda de ouro equivalente ao dinar – 4,722 gramas) podem-se comprar pelo menos dez carneiros. Encontra-se muito mel, que vem do país dos Negros. As gentes vivem desafogadamente e possuem muitos bens” (citado em KI-ZERBO, s/d: 136).
O escritor muçulmano não se esquece da cozinha e a graça das moças da terra: “Encontramos também jovens com uma linda cara, tez clara, corpo esbelto, seios direitos, cintura fina, ombros largos, ancas abundantes, sexo estreito, etc” (citado em KI-ZERBO, s/d: 136).
Embora devamos ter uma prudência em relação aos textos dos cronistas muçulmanos, pois, como disse, alguns deles foram redigidos com base em narrativas orais e consulta a obras, não no local, a obra de Al-Bakri nos sugere um grau de islamização ainda bastante fraco das populações negras (André Miquel é ainda mais rigoroso: “No Ghâna, de resto directamente atingido pelo choque almorávida, tanto o povo como o rei ter-se-iam mantido pagãos, sòmente sendo tocados pelo Islame os intérpretes e certos funcionários...”. MIQUEL, 1971: 216).
Tanto o rei, que ainda era escolhido com base em tradições animistas – a picada da deusa-serpente –, quanto uma parte do povo teriam ainda se mantidos pagãos (embora se deva observar que a cidade com maior densidade demográfica descrita por Al-Bakri era a muçulmana, com suas doze mesquitas). Segundo Ki-Zerbo, esse era o culto do deus-serpente do Uagadu (Uagadu-Bida), antepassado-totem dos Cissés: “Segundo a lenda, saía da toca no dia da entronização dos reis e recebia em sacrifício anualmente a mais bela rapariga da terra. Um dia, diz-se, Maghan, vendo a sua noiva, a jovem virgem Sai, entregue à serpente, matou o réptil. Mas o pitão era o deus da fecundidade. Teria sido o seu desaparecimento que desencadeara a desertificação do país” (KI-ZERBO, s/d: 138). Deve-se ainda atentar para o fato de o Império ter, segundo as estimativas dos especialistas, cerca de um milhão de habitantes (DAVIDSON, 1992: 147).
De resto, Al-Bakri parece ter delimitado bastante bem a separação entre as duas culturas religiosas naquele momento: um bom exemplo disso é a saudação das pessoas quando se aproximavam do rei. Os animistas jogavam terra em sua cabeça em sinal de respeito, os muçulmanos batiam palmas, notável e marcante diferença que mostra o ainda baixo grau de penetração islâmica junto ao rei e à corte de Gana.
Em suma, sabemos da existência desse rico império negro e escravocrata graças aos viajantes islâmicos e à presença muçulmana na região, com seu grupo letrado, mas que ainda não se misturara efetivamente com a população autóctone, nem conseguira penetrar na casa real, ainda de forte tradição animista.
Para finalizar, como eram fisicamente os homens de Gana? Outro cronista islâmico que viveu duzentos anos depois de al-Bakri, o historiador al-Umari (1301-1349), nos informa que o povo era “alto, de compleição preta retinta e cabelos encrespados”. Um dos informantes de al-Umari lhe disse que “o ouro é extraído cavando-se buracos na profundidade que chegam à altura de um homem e são encontrados embutidos nas laterais dos buracos, ou às vezes no fundo deles” (DAVIDSON, 1992: 148).
Os séculos IX e X viram o apogeu do império negro de Gana. No entanto, no século XI, com o avanço almorávida, aqueles territórios foram teatro de grandes convulsões, como veremos a seguir.
VI. A gesta dos almorávidas (c. 1056-1147)
33. O Império Almorávida em sua maior extensão (c. 1110)
Os almorávidas, cuja dinastia começou em 448 (20 de março de 1056), eram formados por várias tribos que se diziam descender de Himyar. As mais célebres são as de lamtuna (ou lemtuna), da qual o príncipe dos crentes Ali ibn Taxufin faz parte, e os chadala. Saídas do Yêmen nos tempos de Abu Bakr Siddiq, que as enviou para a Síria, elas passaram depois para o Egito e depois se transferiram para o Magreb, com Musa ibn Nusayr. Seguiram depois para Tariq até o Tanger, mas seu gosto pelo isolamento as empurraram para o interior e ali habitaram até a época que vamos tratar (Kamil fi-l-Tarij, de Ibn al-Athir. In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo II: 108).
No século XI, do Saara Espanhol ao Marrocos, surgiu um poderoso movimento berbere islâmico que varreu a costa setentrional da África até chegar à Península Ibérica, conferindo um novo caráter e dramaticidade tanto às culturas da África do Norte quanto à Reconquista Ibérica cristã. Para entendê-lo, é preciso levar em conta que, durante muito tempo, os berberes, como vimos, foram reticentes com o Islã, mas depois de terem se convertido transformaram-se em uma das etnias africanas que abraçaram a fé do Corão com mais força.
No entanto, no século X, o Islamismo ainda era praticado em muitas áreas orientais africanas de maneira bastante permissiva. Isso ocorria especialmente com muitas tribos de chefes berberes da costa atlântica da Mauritânia, como os sanhadjas. Por exemplo, eles cumpriam a obrigação da peregrinação a Meca somente como uma formalidade política. Assim, ao retornar de Meca e parar em Kairuan, Yaya ibn-Ibrahim, chefe dos djoddalas, foi se consultar com um sábio muçulmano de nome Abu Amiru (de Fez) e foi repreendido por este por sua ignorância em relação à fé.
O sábio, chocado com o baixo nível de conhecimento da Lei corânica dos djoddalas, decidiu procurar um teólogo para instigá-lo a ir até àquele povo berbere e guiá-lo à luz da verdade sagrada. Encontrou Abdallah ibn Yacine, um grande letrado da cidade de Sidjilmasa, que aceitou ir pregar entre os djoddalas.
Contudo, os berberes o receberam muito mal. Não gostaram nem um pouco das práticas ascéticas de Yacine, queimaram sua casa e o expulsaram. Yacine então se retirou (cerca de 1030) com dois discípulos da etnia berbere dos lemtunas, Yaya ibn Omar e seu irmão Abu Bakr (não confundir com o califa do mesmo nome do século VII), para algum lugar desconhecido da costa atlântica. Foi então que começaram a receber adeptos. Quando chegaram ao milhar, Ibn Yacine batizou-os de Al-Morabetin (aqueles do ribat), palavra que deu origem a almorávida.
O ribat era uma espécie de convento militar muçulmano erguido nas fronteiras do dar al-islan (a “Casa do Islã”) e que acolhia voluntários piedosos que desejavam se retirar do mundo e que ali ficavam sob as ordens de um veterano (sheikh) para se purificar e sair em missões conforme o desejo do sheikh (DEMURGER, 2002: 43). Demurger define o ribat em uma obra dedicada às ordens militares cristãs porque muitos historiadores consideram o ribat o antecessor islâmico das ordens militares e o autor discute essa tese, da qual discorda).
A idéia de posto de vigília e mosteiro fortificado foi mais tarde valorizada pelo sufismo: os sufis levavam um modo de vida que buscava a união com Deus por meio do amor, do conhecimento baseado na experiência e ascese, que levaria a uma união estática com o Criador. Essa invocação tinha o objetivo de desviar a alma das distrações mundanas para libertá-la até o vôo da união com Deus. Uma das formas do dhikr era um ritual coletivo chamado hadra: os participantes repetiam constantemente o nome de Alá, cada vez mais rapidamente, até se chegar a um transe e perda da consciência do mundo sensível (COSTA, 2002: 73-74).
No tempo dos almorávidas não se têm notícias desse sentido preciso de guarnição religiosa. Nessa época, a palavra ribat significava “sua seita, seu corpo, suas forças, sua guerra santa”. O único autor que empregou a palavra precisa de rabita (fortaleza) foi Ibn Abi Zar, em sua obra Rawd al Qirtas (de 1326), portanto, duzentos anos depois do período de Yacine (KI-ZERBO, s/d: 143).
A missão dos almorávidas era impor a verdadeira fé pela força aos não-crentes. A partir de 1042, eles se lançaram em uma furiosa jihad a partir das regiões do Adrar e do Tagant, ambas hoje no coração do Saara Espanhol, contra os djoddalas e os lemtunas, tendo Yacine como chefe espiritual e Yaya como general. Negros do Tekrur logo se juntaram a eles, desejosos de se opor ao Império de Gana. Yaya foi expulso do exército, por não concordar com os saques e violações cometidos por seus soldados.
Após um breve e novo retiro espiritual, ele conseguiu novas adesões de discípulos e se lançou novamente no deserto. Isso, somado à pregação religiosa de Yacine, fez com que as forças almorávidas ganhassem uma grande adesão de soldados (cerca de 30.000 homens armados de lanças, machados, maças, a pé, a cavalo e em camelos). Esse motivado exército religioso varreu todo o Sudão ocidental.
Yaya morreu em 1056 em uma batalha contra os djoddalas próxima a Atar. Yacine atacou o Marrocos (Maghreb el-Acsa) e morreu no ano seguinte, quando os almorávidas passaram a ser dirigidos pelo emir Abu Bakr. Este fundou em 1062 a cidade de Marrakech, apoderou-se de Fez, Tlemcen (capital dos zenatas) e alargou seu poder até Argel. Depois disso, Abu Bakr retornou para o sul e se instalou no Tagant, decidido a atacar e submeter o Império negro de Gana.

VI.1. Os almorávidas na Península Ibérica
Mas antes de tratar do declínio de Gana e de sua derrota para as forças almorávidas, abro um pequeno parêntese à conquista almorávida da Península Ibérica (1092-1094), devido à sua importância para o processo da Reconquista cristã. Nas palavras do conde D. Pedro de Portugal, filho bastardo do rei D. Dinis e famoso cronista do século XIV, os almorávidas eram “os melhores cavaleiros que os mouros tinham” (Crónica Geral de Espanha de 1344, 1990, vol. IV, cap. DLXVIII: 34).
Esses monges-soldados muçulmanos haviam declarado uma guerra santa contra “os muçulmanos depravados dos reinos ibéricos” (CAHEN, 1992: 295).

In: KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 144.
Mesmo antes da invasão almorávida na Península Ibérica, os governantes dos reinos de taifas, mais tolerantes com a convivência e a afinidade entre moçárabes e andaluzes, já não se interessavam pela guerra santa. A palavra taifa (que significa “partido, facção”) designa os principados que se constituíram na Hispânia sobre os restos do califado omíada de Córdoba (MIQUEL, 1971: 216).
Por exemplo, o rei de Granada, ‘Abd Allãh Nãsir, conta em suas memórias que o hadjib Almançor (Muhammad ibn Abi ‘Amir) não conseguiu convencer os andaluzes a fazer a guerra, pois eles “...declararam-se incapazes de participar nas suas campanhas e alegaram (...) que não se achavam preparados para combater e, por outro lado, que a sua participação nas campanhas os impediria de cultivar a terra” (MATTOSO, 1985: 194).
Outro bom exemplo da nova mentalidade dicotômica desses invasores berberes é a obra Ódio a cristãos e judeus do pensador cordovês Ibn Abdun (séc. XII):

Um muçulmano não deve fazer massagem em um judeu nem em um cristão, nem tirar suas sujeiras ou limpar suas latrinas, pois o judeu e o cristão são mais indicados para essas atividades, que são tarefas para gentes vis (…)
Deve proibir-se às mulheres muçulmanas que entrem nas abomináveis igrejas, pois os clérigos são libertinos, fornicadores e sodomitas.
(Tratado de Ibn Abdun. In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ, tomo II: 219)
Curiosamente, os almorávidas praticavam a cinofagia – morte de cães – uma prática e hábito culinário pré-islâmico presente em um hadith do profeta: “Os anjos não entram em uma casa onde há um cão”:

A Hadith consiste na tradição oral das tribos que habitavam a Arábia mais os ensinamentos de Maomé que não foram para o Livro, mas que foram se formando através dos anos. Esta tradição é que conta a história do Profeta, dos santos e dos outros profetas menores, entre estes Jesus.

Os mulçumanos acreditam também nos gênios, fadas, nos espíritos bons e maus, em práticas mágicas e outras coisas que, proibidas aos fiéis, podem ser usadas pelos descrentes (KHALIDI, 2001: 16-17).
Eles também inovaram a sociedade dos nômades berberes e as das fronteiras do mundo negro, trazendo inovações táticas no modo de se fazer a guerra. Acrescentaram aos exércitos regulares três fileiras de arqueiros – precedendo a Europa cristã em quase dois séculos na superioridade da infantaria de arqueiros sobre a cavalaria. Além disso, numa revolução ideológica dos aspectos mentais do conflito, incluíram grupos com grandes tambores, com o intuito de aterrorizar os inimigos.

Iluminura das “Estações de Hariri” (1237), manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris. Esta cena representa uma pequena paragem antes do ataque decisivo, quando tocam as trombetas e rufam os tambores. Ela pode estar se referindo a uma das primeiras batalhas do Islão na Península Ibérica. No entanto, os trajes dos guerreiros e os jaezes das montadas apontam para uma origem oriental e para a época em que a iluminura foi elaborada. In: MATTOSO, José (dir.). História de Portugal. Antes de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, s/d, p. 399.
Este novo estilo de guerra, mais agressivo, era marcado basicamente pela fundamentação religiosa (MATTOSO, 1985: 194). Isto os distinguia dos outros islamitas andaluzes da Península, desprezados pelos berberes almorávidas. Assim, aconteceu a partir do século XI uma “internacionalização” do conflito na Península Ibérica.
De um lado, cristãos peninsulares ligados ideologicamente ao restante da Europa, especialmente ao reino franco; de outro, muçulmanos ibéricos dos reinos de taifas auxiliados pelo conjunto de aliados da África do Norte, por sua vez intransigentes na ortodoxia. Nesse contexto deram-se as vitórias portuguesas do primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, na batalha de Ourique (1146), e na tomada da cidade de Lisboa (1147), com o auxílio de cruzados vindos do norte europeu.
VI.2. A queda do Império de Gana (1203)
Até esse avanço almorávida, o Império de Gana conseguira suportar os ataques estrangeiros, tanto de tribos inimigas quanto dos próprios berberes, graças ao seu exército composto de guerreiros soldados, cavaleiros e arqueiros – citados por Al-Bakri em sua obra, como vimos.
No entanto, apesar de uma forte resistência, eles foram derrotados pelos almorávidas e sua capital, Kumbi Saleh, foi tomada e saqueada, por volta de 1076. Com essa vitória, os almorávidas receberam um poderoso reforço, devido às conversões dos negros de Gana. Disso nos informa o cronista Al-Zuhuri: “As gentes do Gana tornaram-se muçulmanas em 1076 sob a influência dos lemtunas” (citado por KI-ZERBO, s/d: 147).
Abu Bakr prosseguia em sua tentativa de unificar as tribos berberes e com elas atacar Gana. No entanto, morreu em uma escaramuça por causa de uma flecha envenenada (1087). Gana reconquistou sua independência, mas após a devastação e saque de sua capital, dez anos antes, o reino negro nunca mais conseguiu recuperar seu antigo poderio. Pelo contrário, as caravanas passaram a se desviar das rotas que privilegiavam o coração de Gana, e os comerciantes passaram a optar por Tombuctu, Gao e Djena.
Os muçulmanos ricos se refugiaram em Walata, especialmente depois do segundo saque da capital, Kumbi, em 1203, por parte do rei sosso Sumaoro Kanté. Paralelo a esse declínio comercial aprofundou-se o processo de islamização das etnias negras, embora sem nunca atingir todas as camadas da população – e, de resto, o islamismo negro era bastante mesclado com práticas animistas.
VIII. O Império de Mali (c. 1235-1500)
A queda do Império de Gana abriu um vácuo de poder. A grande questão era: quem tomaria agora o controle das rotas comerciais próximas das fontes auríferas? Os almorávidas fracassaram em sua tentativa de monopolizar o tráfico. O reino que parecia mais próximo de conseguir esse intento era o reino sosso dos Kantés, ao sul de Gana.
Em 1180, surgiu um guerreiro, Diarra Kanté, de um clã de ferreiros animistas adversários do Islão. Feiticeiro famoso e de prestígio, Kanté conseguiu tomar a cidade de Kumbi Saleh, mas sem ocupar as jazidas de ouro, controladas agora por uma tribo de camponeses, os malinqués (“homem de Mali”). Kanté, após dominar o Dyara, o Bakunu e o Bumbu, apoderou-se da região do Buré.

Kanté foi um pequeno interregno entre dois impérios, Gana e Mali. Quanto ao segundo, não se conhecem as origens do reino de Mali (ou Mandinga). Diferentes etnias viviam naquela região. Seus chefes se diziam “caçadores-mágicos”, todos com ritos iniciatórios mais ou menos comuns. Esses clãs estavam unidos pelo chamado “parentesco de brincadeira”, isto é, um curioso direito e dever de fazer troça uns aos outros. O chefe gozava do monopólio das pepitas de ouro. A estrutura social baseava-se em uma grande família que dispunha de um campo comunitário (foroba) próximo à aldeia. Logo um dos herdeiros sosso tomou o título de mansa (ou maghan), isto é, imperador.
Paralelo a esse processo de integração por parte dos sosso acontecia a conversão ao Islamismo. Baramendana foi o primeiro rei a se converter, graças ao pai de Abu Bakr, em 1050. A tradição conta que Baramendana estava desesperado por causa de uma longa seca. Então se dirigiu a um devoto lemtuna que o levou a um monte para passar uma noite rezando. Pela manhã choveu, e o rei mandou destruir os ídolos animistas e se converteu ao Islamismo.

In: KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 165.
A partir de 1150 se conhece relativamente bem a cronologia dos reis de Mali. Hamana, Djigui Bilali (1175-1200), Mussa Keita, Naré Famaghan (1218-1230) e principalmente Sundjata (ou Mari Djata, o “Leão do Mali”), todos com estórias recheadas de lendas e mitos e transmitidas também pelos griot, os “transmissores de ouvido” de cada etnia que passam de geração para geração as tradições de sua cultura.
Na época de Sundjata, Mali era um reino essencialmente agrícola. Os malinqués desenvolveram a cultura do algodão, do amendoim e da papaia, além da criação de gado. Sundjata instituiu uma associação de trinta clãs (de artesãos, de guerreiros, de homens livres – que, no entanto, eram chamados de “escravos da coletividade”, os ton dyon). Com o crescimento do reino, a categoria dos escravos se multiplicou – recorde que sempre os reinos negros praticaram a escravidão.
Com o filho de Sundjata, Mansa Ulé (1255-1270) e seus sucessores – Abubakar I, Sakura, Abubakar II – até Mansa Mussa (ou Kandu Mussa, 1312-1332), o reino de Mali passou a ser conhecido no mundo ocidental. Em 1324, Mansa Mussa realizou uma peregrinação a Meca, passando pelo Egito e com a intenção de maravilhar os soberanos árabes.

Observe as feições alongadas do rosto do personagem, aliás, de todo o corpo. Pode-se, assim, ter uma noção do tipo físico predominante então, além de uma contemplação de posturas e gestos corporais.
O Tarikh es Soudan! (1655), de autoria do mouro Es Saadi, nos informa que ele atravessou o deserto passando por Walata e pelo Tuat com 60.000 mil servidores (escravos), evidentemente um exagero – as cifras hoje estão por volta de 500. (HEERS, 1983: 79). Chegou ao Cairo com cerca de duas toneladas de ouro (!), em pó e em pepitas. O cronista Al-Omari (†1349) nos conta:
Quando da minha primeira viagem ao Cairo, ouvi falar da vinda do sultão Mussa (...) E encontrei os habitantes do Cairo todos excitados a contarem as largas despesas que haviam visto fazer às suas gentes.

Este homem espalhou pelo Cairo ondas de generosidade. Não deixou ninguém, oficial da coroa ou titular de qualquer função sultânica, sem receber dele uma quantia em ouro. Que nobre aspecto tinha este sultão! Que dignidade e que lealdade! (citado por KI-ZERBO, s/d: 171).
Mansa Mussa foi tão generoso que, ao sair do Cairo, foi obrigado a pedir um empréstimo a um riquíssimo mercador de Alexandria, para que pudesse manter sua largueza até chegar a Meca...
Sua peregrinação fez o Império de Mali ser conhecido por todo o mundo, e os mapas europeus passaram a citá-lo. Por exemplo, tanto o de Angelo Dulcert Portolano (1339), quanto o Atlas catalão de Abraão Cresques (1375), elaborado para o rei da França Carlos V (1338-1380), o Sábio, trazem nitidamente o nome da capital (Ciutat de Melli), além do rei de Mali, Mansa Mussa, sentado em seu trono e segurando uma pepita de ouro.

Este mapa catalão do século XIV do Norte da África tem quatro reis, três africanos: o rei Mansa Musa de Mali (sentado, com uma gema de ouro na mão direita), o rei de Organa, o rei da Núbia e o rei da Babilônia.

Os dois números em vermelho marcam dois textos. São eles: 1. “Toda esta parte tem gentes que ocultam a boca; só se vêem seus olhos. Vivem em tendas e têm caravanas de camelos. Também possuem animais de cujas peles fazem excelentes escudos”. 2. “Este senhor negro é aquele muito melhor senhor dos negros de Guiné. Este rei é o mais rico e o mais nobre senhor de toda esta parte, com abundância de ouro na sua terra” (tradução literal). Observe que embaixo do globo de ouro que o imperador Mansa Musa segura na mão direita está a representação da cidade de Tumbuctu. In: DAVIDSON, Basil. “Os Impérios Africanos”, História em Revista (1300-1400). A Era da Calamidade. Rio de Janeiro: Abril Livros / Time-Life, 1992, p. 149.
De regresso para Mali, o imperador trouxe consigo um poeta-arquiteto, Abu Issak, mais conhecido como Es Saheli. Com ele, construiu a grande mesquita de Djinger-ber, em Tumbuctu.
Os sucessores de Mansa Mussa tiveram dificuldades de manter um território tão vasto. Depois de Maghan (1332-1336), até Mussa II (1374-1387), o reino de Mali viu Tumbuctu ser saqueada, além de sucessivos assassinatos palacianos que enfraqueceram o império. Lentamente a hegemonia passava para o reino de Gao, que anexava uma a uma as províncias do leste, além de tomar a cidade de Djena, metrópole comercial.
No final do século XV o Tekrur passou para os domínios do estado volofo. Houve um curto período confuso entre a hegemonia do Mali e do Gao. Várias etnias foram arrastadas para o movimento dos peules do Bundu, conduzido por Tenguella I (chamado de “o Libertador”). O imperador do Mali tentou até uma aliança com D. João II de Portugal, mas nenhuma das missões portuguesas parece ter chegado a seu destino.

Ela preserva o mesmo estilo africano, tanto no tipo de material da construção quanto no estilo, reto, simples e vertical. Observe os paus enfiados nas paredes (como nas outras mesquitas exibidas nas demais imagens): são andaimes usados ao longo dos séculos para restaurar os edifícios de adobe e estuque, após o castigo sofrido pela construção nas concentradas e breves chuvas anuais.
VIII.1. A religião em Mali
Como todos os reinos negros islamizados desse período, a religião em Mali era um misto de várias influências, especialmente as pagãs. Por exemplo, Mussa desconhecia a interdição do Corão de ter mais de quatro mulheres, e os malinqués comiam carnes proibidas pelo Islão. Sacerdotes com máscaras de aves praticavam ritos animistas na corte. Em contrapartida, as festas religiosas islâmicas eram celebradas com grande pompa. As crianças aprendiam o Alcorão, às vezes com duros castigos – eram postas a ferro, por exemplo.
VIII.2. O imperador e sua corte em Mali (descrição de Ibn Batuta)

O cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade Média, chegou a Mali quinze anos depois da morte de Mansa Musa, entre os anos 1352-1353. Em um belo texto medieval, esse notável cronista muçulmano nos informa o fausto da corte do imperador de Mali (o texto explicativo em parênteses é de minha autoria):
O sultão tem uma cúpula elevada, cuja porta se encontra no interior de seu palácio e onde ele se senta com freqüência. Tem do lado das audiências três janelas em arco, de madeira, cobertas de placas de prata, e por baixo delas três outras guarnecidas de lâminas de ouro ou de prata dourada. Estas janelas têm cortinados de lã que são levantados no dia da audiência do sultão na cúpula (...)

Da porta do castelo saem trezentos escravos, uns com arcos na mão, outros com pequenas lanças e escudos. Uns estão sentados, outros de pé. À chegada do rei, três escravos precipitam-se para chamar o seu lugar-tenente. Chegam os comandantes, assim como o pregador, os sábios juristas, que se sentam à esquerda e à direita, diante dos homens de armas. À porta, de pé, o intérprete dougha em grande aparato.

Está soberbamente vestido, em seda fina. O seu turbante está ornado de franjas, que estas gentes sabem fazer admiravelmente. Tem um sabre a tiracolo, cuja bainha é de ouro. Nos pés botas e esporas (...) Tem na mão duas lanças curtas. Uma é de prata, a outra é de ouro. As pontas são de ferro. Os militares, o governador, os pajens ou eunucos e os mesufitas (mercadores berberes e sarakholés) estão sentados no exterior do lugar das audiências, numa longa rua, vasta e com árvores.

Cada comandante tem diante de si os seus homens, com as suas lanças, os seus arcos, os seus tambores, as suas trompas, enfim, com os seus instrumentos de música feitos com caniços e cabaças, em que se bate com baquetas e que dão um som agradável (as trompas eram feitas de marfim das presas de elefantes). Cada um dos comandantes tem sua aljava às costas. Tem o seu arco à mão e anda a cavalo (...) No interior da sala de audiências e nas janelas vê-se um homem de pé. Quem desejar falar ao rei dirige-se primeiro ao dougha. Este fala ao dito personagem que está de pé e este último ao soberano.

Instala-se então um grande estrado com três degraus debaixo de uma árvore. É o pempi. (segundo Al-Omari, o pempi era uma grande cadeira de ébano, parecida com um trono, com as medidas adequadas a uma personagem alta e gorda. De cada lado, uma defesa de elefante a cobri-lo, uma em frente da outra). É coberto de seda e guarnecido de almofadas. Por cima instala-se o guarda-sol, que parece uma cúpula de seda, no alto da qual se vê uma ave do tamanho de um gavião.

O rei sai por uma porta aberta num ângulo do castelo. Tem o seu arco à mão e a aljava às costas. Traz na cabeça um solidéu de ouro, fixado por uma pequena faixa também de ouro, cujas extremidades são pontiagudas como facas e com mais de um palmo de comprimento. Na maioria das vezes, traz uma túnica vermelha e felpuda, feita com tecidos de fabricação européia chamados mothanfas. Diante dele saem os cantores, tendo na mão um kanabir de ouro e de prata (O kanabir era uma calhandra, isto é, uma espécie de cotovia, sabiá-do-campo).
Atrás dele encontram-se cerca de trezentos escravos armados. O soberano caminha lentamente. Aproxima-se devagar e pára mesmo de vez em quando. Chegado ao pempi, deixa de caminhar e olha para os assistentes. Em seguida, sobe lentamente o estrado, como o pregador sobe ao púlpito. Uma vez sentado, tocam-se os tambores e fazem-se soar as trompas e as trombetas. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 176-177.)
Alguns dos pajens escravos do rei eram comprados no Cairo. Era expressamente proibido espirrar em sua presença. Os cortesãos vestiam-se de branco, com tecidos de algodão cultivado na própria terra. As jovens e mulheres escravas, em contrapartida, andavam completamente nuas, para escândalo de Ibn Batuta. Ele ainda estranhou a comida: “Dez dias depois de nossa chegada, comemos um mingau que eles preferem a qualquer outra comida. Na manhã seguinte, estávamos todos doentes”. (citado por DAVIDSON, op. cit.: 150)
VIII.3. A organização política e a vida econômica
No século XVI, tempo de Mahmud Kati, historiador e conselheiro do Askia Mohammed, o império tinha cerca de quatrocentas cidades e vilas. O sistema de governo era descentralizado. Era dividido em províncias, administradas por um dyamani tigui (ou farba). As províncias eram subdivididas em conselhos (kafo) e aldeias (dugu).
A autoridade da aldeia poderia ser bicéfala: um chefe político, outro religioso. O farba recolhia impostos e requisitava tropas, caso necessário. Havia ainda reinos subordinados que reconheciam a hegemonia do imperador, enviando regularmente presentes.
*
Um dos segredos do Império de Mali foi a maleabilidade de seu sistema político, única lógica possível em uma estrutura sem burocracia, além da tolerância religiosa. Povos tão variados como os tuaregues, os songais, os malinqués e os peules, reconheceram, durante mais de cem anos, a soberania do imperador de Mali. Há um elogio do cronista Ibn Batuta que expressa bem esse sentimento de confiança no funcionamento da estrutura do império:
Não é necessário andar de caravana. A segurança é completa e geral em todo o país (...) O sultão não perdoa a ninguém que se torne culpado de injustiça (...) O viajante, tal como o homem sedentário, não tem a temer os malfeitores, nem os ladrões, nem os que vivem de pilhagem.

Os pretos não confiscam os bens dos homens brancos que venham a morrer nas suas terras, ainda mesmo que se trate de tesouros imensos. Depositam-nos, pelo contrário, em mãos de um homem de confiança dentre os brancos, até que se apresentem aqueles a quem revertam por direito e tomem conta deles. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 180).
Esse é um belo testemunho da grandeza do Mali, feito pelo maior viajante da época.
IX. O Império Songai (de Gao)

Uma das características mais perenes das sociedades pré-industriais e iletradas (ou semiletradas) é a existência de mitos de origem relacionados à cultura e especialmente ao poder monárquico, além de suas manifestações sociais, todos mitos originários das tradições orais africanas (Controversial Origins). Além disso, os homens das sociedades pré-industriais também tinham uma forma bastante distinta de se relacionar com o mundo (a natureza) e com seus animais.
O caso do Império de Songai (ou de Gao) é um deles. Sua estória começa com o mito do feiticeiro Faran Makan Boté. Ele nasceu de um pai sorko e uma “mãe-fada ligada aos espíritos das águas”. Ao subir o rio, Makan Boté se aliou aos caçadores gows e pescadores sorkos, e passou a exercer as funções de grande sacerdote (kanta) junto a camponeses na região de Tillabery. Assim teriam nascido as energias mágicas do Songai. (KI-ZERBO, op. cit.: 181)
Mas a lenda não pára aqui. Por volta do ano 500, príncipes berberes chegaram às margens da curva do rio Níger e libertaram os pescadores sorkos e camponeses gabibis do terror de um peixe-feiticeiro (seria um descendente de Makan Boté). O autor da façanha teria sido Za Aliamen, e a partir de então sua dinastia reinaria em Kukya até 1335 (no mapa acima, a região assinalada entre Tumbuctu e Gao). Por volta de 1009, Diá Kossoi, décimo-quinto rei da dinastia fundada por Za Aliamen, fixou sua capital em Gao. Ele foi o primeiro rei a se converter ao Islamismo. Já no século XI, Gao rivalizava com a cidade de Kumbi, capital de Mali.
Esse surto de desenvolvimento despertou a cobiça dos malinqués: em 1325, Gao foi conquistada pelo Império de Mali, mas em 1337, dois irmãos e príncipes songaleses – Ali Kolen (ou Golon) e Suleiman Nar – conseguiram se desvencilhar da dominação mali, e Ali Kolen fundou a nova dinastia dos Sis (ou Sonnis).
Suleiman Daman (ou Dandi), décimo-oitavo rei da dinastia Sonni, teria conquistado a cidade de Mesma, mas foi com Sonni Ali (1464-1493), ou Ali Ber (o Grande), ou ainda Dali (o Altíssimo), imperador songai e grande feiticeiro, é que o império se afirmou definitivamente. Sonni Ali conquistou Tumbuctu – então sob o domínio tuaregue –, realizando um verdadeiro massacre (1468), motivo pelo qual os escritores muçulmanos terem-no apresentado como um tirano sanguinário, um ímpio. (Sunni Ali)

Ali também conquistou Djenne (1473), após noventa e nove tentativas (!) dos malinqués de se apoderar de volta da cidade, além do centro de Macina, um pouco mais ao norte. Abriu ainda um canal d’água a oeste do lago Faguibine (ver imagem 42) e ordenou a redação das atas oficiais do reino. Com sua morte, em 1492, seu filho Sonni Bakary assumiu a coroa, mas reinou somente um ano.
Em seguida, houve uma tomada do poder: o filho de Sonni renegou a fé islâmica e um lugar-tenente chamado Mohammed Torodo, assumiu o trono, com o nome de Askia Mohammed, com a ajuda dos ulemás, corpo de estudiosos. (HOURANI, op. cit.: 77)
Como Mussa, Askia também realizou uma luxuosa peregrinação a Meca em 1496, com quinhentos cavaleiros e mil homens a pé. Esse mini-exército de escravos e homens livres levava consigo 300.000 peças de ouro, um terço distribuído em esmolas durante a viagem. No Hedjaz, Askia conseguiu do califa o título de “califa do Sudão”: Khalifatu biladi al-Tekrur.
Do califa Mohammed até Askia Ishak I (1539-1549), o império adquiriu cada vez mais territórios, graças às guerras – e apesar das intrigas e assassinatos políticos palacianos. Por exemplo, no tempo de Askia Mohammed Bunkan (1531-1537), o imperador de Songai tinha uma grande corte com um harém, seus cortesãos recebiam roupas de fazenda e braceletes (mantendo a tradição medieval do soberano vestir, literalmente, seus convivas) e uma orquestra, com novos instrumentos (trombetas e tambores) acompanhava o príncipe em suas viagens. A guarda pessoal do soberano era composta de 1.700 homens. O império então se estendia por mais de dois mil quilômetros, de Teghazza ao país dos mossi (norte a sul), de Agades a Tekrur (leste a oeste).

In: KI-ZERBO, op. cit.: 181.
Mais bem organizado e estruturado que o império de Mali, Songai estava fundado em torno da pessoa do imperador. No dia de sua entronização, ele recebia um selo, uma espada e um Corão, além de conservar dois atributos mágicos antigos: o tambor e o fogo sagrado (dinturi). A corte obedecia a um rígido protocolo: por exemplo, o cuspe do príncipe não podia cair no chão, sendo recolhido nas mangas de qualquer um dos setecentos homens vestidos de seda que o acompanhavam. Como em Mali, todos os que se aproximavam dele deveriam cobrir a cabeça de pó, com raras exceções (no caso do general do exército, este utilizava farinha).
A formação do exército, dividido por sua vez em vários corpos, reestruturou a sociedade: isento de ir à guerra, o povo trabalhava na terra, na produção artesanal e no comércio. A “burocracia” era muito estratificada (citemos apenas alguns cargos): os altos funcionários (os koy, os fari), ministros e governadores das montanhas (tondi-fari), feiticeiras (que tinham a permissão de dirigirem-se ao imperador pelo nome), o governador da província (gurma-fari) que era o celeiro agrícola do império, o ministro da navegação fluvial (hi-hoy), o chefe dos cobradores de impostos (fari-mondyo), o sacerdote do culto aos antepassados (horé-farima), o inspetor das florestas (sao-farima), o chefe dos pescadores (ho-koy), e ministro encarregado dos homens brancos residentes no império (korey-farima). Todos eram nomeados e demitidos pelo imperador a seu bel-prazer.
A economia songai é hoje calculada com base no número de escravos disponíveis para o trabalho no campo. Por exemplo, uma terra com duzentos escravos deveria produzir cerca de 250 toneladas de arroz por ano (1.000 sunus). O historiador Ki-Zerbo descarta a possibilidade de comparação desse sistema escravocrata com o feudalismo europeu, embora defenda um princípio semelhante para o caso africano: a existência do sistema religioso-simbólico de dádiva e contra-dádiva atenuava a opressão escravocrata. Pois o que interessava ao senhor da terra era ter o maior número de famílias e aldeias de servos, não apenas a exploração econômica (KI-ZERBO, op. cit.: 187-188).
Isso certamente é um caráter análogo ao sistema sócio-econômico vigente cerca de quatrocentos anos antes na Europa medieval. Esse sistema, também chamado de dom e contra-dom, está bem expresso em um documento, escrito pelo historiador soninké de Tumbuctu, Mahmud Kati (Tarikh el-Fettach – a Crônica do Buscador – obra escrita em 1520). Nele, há um interessante e expressivo diálogo em que o imperador Askia Daud concede a liberdade a uma escrava. Ela, por sua vez, sentindo-se presa a ele, declara:
É necessário que eu te traga um tributo para que, com ele, te lembres de mim. Será de duas barras de sabão no princípio de cada ano.
Então o imperador respondeu:
E eu também quero, para obter o perdão do Altíssimo e a Sua indulgência, mandar-te pagar um tributo, que receberás de mim no princípio de cada ano e que será constituído por uma barra inteira de sal e por um grande pano preto. Aceita-o, pelo amor de Deus. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 188)

Observe os comentários do próprio autor escritos nas margens.
O ouro e o sal serviam de moeda corrente em Songai, mas a principal moeda eram os cauris, conchas de moluscos utilizadas como moeda de troca até meados do século XIX – e isso do Sudão à China. De qualquer modo, os imperadores Askias procederam a uma unificação de pesos e medidas para evitar fraudes.
As cidades do império eram bastante populosas, e parece que suas gentes se orgulhavam disso. Um trecho da mesma obra de Mahmud Kati ilustra muito bem esse sentimento de auto-estima:
Tendo surgido uma contenda entre as gentes de Gao e as de Cano quanto a saber qual das duas cidades era a mais populosa, frementes de impaciência, jovens de Tombuctu e alguns habitantes de Gao intervieram e, pegando em papel, em tinta e em penas entraram na cidade de Gao e puseram-se a contar os grupos de casas, começando pela primeira habitação a oeste da cidade, e a inscrevê-las uma após a outra, “casa de fulano”, “casa de sicrano”, até chegarem às últimas construções da cidade, do lado leste. A operação levou três dias e contaram-se 7.626 casas, sem incluir as cubatas construídas de palha. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 189)
Esse certamente é um dos primeiros censos conhecidos em África, talvez mesmo um dos primeiros do fim da Idade Média européia. Com ele, os historiadores puderam calcular uma população citadina de cerca de 100.000 habitantes.
IX.1. Tumbuctu renasce na pena de Al-Hasan (1483-1554)

Todas essas cidades eram grandes centros de estudos, especialmente dos textos religiosos e de Direito (notadamente a jurisprudência). Em sua obra Descrição da África (1526), o granadino Al Hasan, chamado de Leão, o Africano (al-Hasan ibn Muhammad al Wazzân az-Zayâtî, 1483-1554), nos dá preciosas e claras informações sobre a cidade de Tumbuctu (os comentários em parênteses são meus):

O reino recebeu recentemente esse nome, depois que uma cidade foi construída por um rei chamado Mansa Suleyman, no ano 610 da Hégira (1232), próxima doze milhas de uma filial do rio Níger (Mansa Suleiman reinou nos anos 1336-1359. Na verdade, a cidade de Tumbuctu foi provavelmente fundada no século XI pelos tuaregues, e antes foi capital do reino de Mali em 1324).
As casas de Tombuctu são choupanas feitas de pau-a-pique de argila, cobertas com telhados de palha. No centro da cidade há um templo construído de pedra e de almofariz por um arquiteto de nome Granata. (Ishak es Sahili el-Gharnati, trazido para Tumbuctu por Mansa Suleiman)
Além do templo, há um grande palácio também construído pelo mesmo arquiteto, onde o rei vive. As lojas dos artesãos, dos comerciantes, e, especialmente, as dos tecelões de pano de algodão, são muito numerosas. As telas são importadas da Europa para Tombuctu, carregadas por comerciantes da Barbária. (Por caravanas de camelos que passavam pelo deserto do Saara vindas da África do Norte)
As mulheres da cidade mantêm o costume de vendar seus rostos, com exceção dos escravos, que vendem todos os gêneros alimentícios. Os habitantes são tão ricos, especialmente os estrangeiros que se estabeleceram no país, que o rei atual deu duas de suas filhas a dois irmãos, ambos homens de negócios, pois era ciente de suas riquezas. (O autor se refere a Omar ben Mohammed Naddi, que não era de fato o rei, mas um representante do rei de Songai)

Há muitos poços que contêm água doce em Tumbuctu. Além disso, quando o rio Níger está cheio, canais levam a água para a cidade. Grãos e animais são abundantes, de modo que o consumo de leite e de manteiga é considerável. Contudo, o fornecimento de sal é fraco, porque ele é levado daqui para Tegaza, que fica cerca de 500 milhas de Tumbuctu.
Eu mesmo estava na cidade no momento em que uma carga de sal foi vendida por oito ducados. O rei tem um rico tesouro rico de moedas e pepitas de ouro. Uma dessas pepitas pesa 970 libras. (Como vimos, os escritores muçulmanos mencionam freqüentemente as fabulosas pepitas de ouro africanas, mas atualmente há a tendência de se considerar os tamanhos descritos por eles um exagero)

A corte real é magnífica e muito bem organizada. Quando o rei vai de uma cidade a outra com as gentes de sua corte, monta um camelo e os cavalos são conduzidos manualmente por servos (escravos). Se a luta é necessária, os servos montam os camelos e todos os soldados montam nas costas dos cavalos. Quando alguém desejar falar com o rei, deve ajoelhar-se diante dele e curvar-se ao chão; mas isto é exigido somente daqueles que nunca falaram nem com o rei, nem com seus embaixadores.
O rei tem aproximadamente 3.000 cavaleiros e uma infinidade de soldados de infantaria, todos armados com arcos feitos de funcho selvagem, e com o qual disparam setas envenenadas. (Funcho é uma planta aromática e ramosa, de grande importância medicinal)
Este rei faz a guerra somente contra os inimigos vizinhos e contra aqueles que não aceitam lhe pagar tributo. Quando obtêm uma vitória, ele vende todos os inimigos, inclusive as crianças, no mercado em Tumbuctu.
Os pobres cavalos nascem pequenos neste país. Os comerciantes usam-nos para suas viagens e os cortesãos para mover-se na cidade. Os bons cavalos vêem da Barbária. Chegam em uma caravana e, dez ou doze dias mais tarde, são conduzidos ao soberano, que, caso goste, os examina e paga apropriadamente por eles. O rei é um inimigo declarado dos judeus. Ele não permitirá que nenhum deles viva na cidade. Caso ouça que um comerciante da Barbária anda ou faz negócio com eles, o rei confisca seus bens. Há numerosos juízes em Tumbuctu, professores e sacerdotes, todos bem nomeados pelo rei, que honra muito as letras. Muitos livros escritos à mão e importados da Barbária são vendidos. Há mais lucro nesse comércio do que em toda a mercadoria restante.
Ao invés de dinheiro, são usadas pepitas puras de ouro como moeda de troca. Para compras pequenas, escudos de cauris trazidos da Pérsia; quatrocentos cauris igualam um ducado. Seis ducados e dois terços correspondem a uma onça romana de ouro. (Como vimos, os cauris eram conchas de moluscos utilizadas como moeda, desde o Sudão até a China; um ducado de ouro sudanês deveria pesar cerca de 15 gramas)

Os povos do Tumbuctu são de natureza calma. Têm um costume quase regular de caminhar à noite pela cidade (com exceção daqueles que vendem ouro), entre dez e uma hora da madrugada, tocando instrumentos musicais e dançando. Os cidadãos têm muitos escravos a seu serviço, tanto homens quanto mulheres.
A cidade corre muito perigo de incêndios. Quando eu estava lá em minha segunda viagem (provavelmente em 1512), metade da cidade queimou no espaço de cinco horas. Com medo de o vento violento levar o fogo para a outra metade da cidade e também queimá-la, os habitantes começaram a tirar seus pertences.
Não há nenhum jardim ou pomar na área que cerca Tumbuctu. (Leo Africanus: Description of Timbuktu, from The Description of Africa [1526])
IX.2. A educação no Império de Songai
Como em todo o mundo urbano islâmico, a educação era muito incentivada pelos potentados locais. Tumbuctu e as demais cidades do Império de Songai tinham muitos professores e uma antiga tradição de centros de estudos. Em Tumbuctu, por exemplo, a universidade de Sankore, organizada em torno de três mesquitas (Jingaray Ber, Sidi Yahya e Sankore), abrigava já no século XII cerca de 25.000 estudantes, isso em uma população de cerca de 100.00 pessoas, como vimos (ver University of Timbuktu).

Doutores atravessavam o deserto para ministrar seus cursos ou assistir a alguma disciplina de um colega. O cádi (juiz) de Tumbuctu, Mahmud, inspirava reverência dos Askias e de seus ministros - suas funções eram distintas das do governador, pois não tinha deveres políticos ou financeiros, cabendo-lhe somente decidir conflitos e tomar decisões à luz do sistema islâmico de leis (HOURANI, op. cit.: 56)
Muitas vezes o cádi censurava abertamente o imperador nos conselhos, quando se sentavam ao lado dos generais. Por exemplo, novamente segundo Mahmud Kati em sua obra Tarikh el-Fettach (1520) – e se acreditarmos na sinceridade de seu relato - ele teria dito pessoalmente ao Askia Mohammed, de quem era conselheiro:
Esqueceste ou finges esquecer o dia em que me foste procurar em casa e me pegaste pelo pé e pelas roupas, dizendo-me “Venho colocar-me sob a tua proteção e confiar-te a minha pessoa para que me livres do fogo do Inferno”? Foi por esse motivo que pus fora os teus enviados. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 190)
Como se vê – e Ki-Zerbo destaca muito bem isso em sua obra – a soberba universitária tem longa tradição mundo afora, e aqui se misturava ao clericalismo vigente no século XVI.

Desse celeiro de estudiosos de Songai, o mais ilustre sem dúvida foi Ahmed Baba (c. 1556-1620). Nascido em Arauane (dez dias de marcha de Tumbuctu a Tuat), Baba teria escrito setecentas obras (!), dentre elas um dicionário dos sábios do rito malekita e um tratado sobre as populações do Sudão ocidental. Seus estudos abrangiam praticamente todo o campo dos estudos islâmicos da época: Língua Árabe, Retórica, Exegese corânica e Jurisprudência. Sua biblioteca tinha cerca de 1.600 obras.

Mahmud Kati escreveu com entusiasmo sobre esse ambiente cultural efervescente no Império de Songai, e com ele termino minha narrativa da expansão muçulmana na África e o surgimento dos impérios negros ao sul do Saara:
Naquele tempo, Tombuctu era sem igual entre as cidades do país dos Negros pela solidez das instituições, pelas liberdades políticas, pela pureza dos costumes, pela segurança das pessoas e dos bens, pela clemência e compaixão para com os pobres e os estrangeiros, pela cortesia em relação aos estudantes e aos homens de ciência e pela assistência prestada a estes últimos. (citado por KI-ZERBO, op. cit.: 191)
Assim, até o século XVI, o Império de Songai, como o restante da África negra, conheceu um grande desenvolvimento e expansão. No entanto, a partir de então, os estados muçulmanos passariam a um expansionismo brutal (o primeiro deles o reino de Marrocos, muito interessado nas minas de sal do outro lado do deserto). Somado a isso, a Europa passou a conhecer a África e utilizá-la para seus fins igualmente expansionistas. “É o começo de uma aventura sombria”, afirma Ki-Zerbo. (KI-ZERBO, op. cit.: 251)

Essa escultura de madeira patinada (com verniz oxidado pelo tempo e pela luz) é uma boa metáfora de encerramento de nossa narrativa. A partir de então – século XVI – a África se ajoelhou e se rendeu a seus conquistadores muçulmanos e europeus, cada vez mais ávidos de homens e riquezas, cada vez mais aproveitadores, tanto do sistema escravocrata vigente na África (entre muçulmanos negros, berberes e entre as tribos não-muçulmanas) quanto de suas rotas de comércio e exploração de metais e produtos.

Este trabalho é dedicado ao querido e saudoso Professor Mário Maestri Filho, que nos distantes idos de 1983 ministrou a então inédita disciplina "História da África" no curso de História da Universidade Santa Úrsula, matéria que tive a honra de assistir como aluno e que me fez despertar o interesse pelas culturas negras medievais africanas.

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SOUSA, João Silva de. Religião e Direito no Alcorão. Lisboa: Editorial Estampa, 1986.

Sunni Ali (r. 1464-1492).

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Palavras-chave: África, Escravidão, Gana, Islã, Mali, Songai.
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