segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Conheça a história de alguns heróis e heroínas negras no Brasil

O silêncio existente sobre a participação do negro na história do Brasil retrata um dos aspectos perversos do racismo na sociedade brasileira. No ensino de história é negado o protagonismo negro e aprendemos erroneamente que as grandes lideranças, os grandes feitos das personalidades do país, foram protagonizados somente pelos brancos.
Como os negros estiveram em situação desigual em relação aos brancos, poucas histórias a seu respeito foram registradas. Sem contar, nos poucos casos registrados, omitiram a origem etnicorracioal ou, simplesmente mudaram a cor dos mesmos, a tal ponto, de pessoas, mesmo lendo e estudando sobre determinadas personalidades negras brasileiras de séculos passados, as imaginarem como brancas.
Isso porque a imagem de alguns foram veiculadas como brancos, como o caso, de Machado de Assis e Aleijadinho.
Conheçam agora algumas personalidades negras que se destacaram, influenciando na história brasileira, mesmo vivendo em situações de extrema adversidade.
Francisco José do Nascimento
Estátua de Francisco José do Nascimento, O “Dragão Do Mar”, homenagem ao herói abolicionista cearense
O Dragão do Mar. Francisco José do Nascimento recebeu esse apelido em decorrência de sua luta contra a embarcação de escravizados, realizada pelos escravocratas do Ceará que estavam vendendo os cativos para os fazendeiros da região Sudeste. Com isso, pretendiam atenuar os prejuízos devido a uma grande estiagem e à epidemia do cólera que ocorria no período de 1877 e 1879.
Francisco era presidente da Sociedade Cearense Libertadora. que se opunha ao escravismo no Ceará. Conhecedor do mar, pois era filho de pescador e, ainda garoto, prestava serviço ao navio Tubarão, fazendo entregas de recados, tornou-se mais tarde, prático-mor da barra do Porto de Fortaleza. Diante da situação que se instalou, organizou os jangadeiros, bloqueando o porto.
Uma das importantes ações que exemplificam a luta abolicionista no Ceará, que fizeram com o estado fosse o primeiro a abolir a escravidão, no ano de 1884. Francisco nasceu em 1839, vindo a falecer em 1914.
Dandara
Dandara foi uma grande guerreira na luta pela liberdade do povo negro. Ainda no século XVII, participou das lutas palmarinas, conquistando um espaço de liderança. De forma intransigente, entendia que a liberdade era inegociável. enfrentando todas as batalhas que sucederam em Palmares. Era a companheira de Zumbi dos Palmares. Opôs-se, juntamente com ele, a proposta da Coroa Portuguesa em condicionar e limitar reivindicações dos palmarinos em troca de liberdade controlada.

Dandara morreu em 1694 na frente de batalha, para defender o Quilombo dos Macacos, mocambo pertencente ao Quilombo dos Palmares.
Luíza Mahin
Luíza Mahin, foi uma protagonista importante na Revolta dos Malês. Conforme alguns estudiosos, se essa revolta vingasse, Luísa seria a rainha da Bahia. Construindo um reinado em terras brasileiras, já que fora princesa na África, na tribo Mahi, integrante da nação nagô. Foi alforriada em 1812.
Ela também participou da Sabinada entre 1837-1838. Perseguida, acabou fugindo para o Rio de Janeiro. Não se sabe ao certo, mas imagina-se que essa importante mulher tenha sido extraditada juntamente com seus companheiros muçulmanos africanos que encabeçaram a Revolta dos Malês.
Carolina Maria de Jesus
Nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, no ano de 1914.
Sendo de uma família extremamente pobre, trabalhou desde muito cedo para auxiliar no sustento da casa. Com isso, acabou não frequentando a escola, além de dois anos. Mudou-se para São Paulo, indo morar na favela, para sustentar a si e seus filhos, tornou-se catadora de papel. Guardava alguns desses papéis, para registrar seu cotidiano na favela, denunciando a realidade excludente em que viviam os negros. Em 1960, foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que conheceu seus escritos. Assim, ela escreveu o livro Quarto de Desejos, que vendeu mais de 100 mil exemplares.
Na imagem vemos Carolina Maria de Jesus ao lado da também escritora, Clarice Lispector.
Tornou-se uma escritora reconhecida, particularmente fora do país, sendo incluída na antologia de escritoras negras, publicada em 1980 pela Randon House, em Nova York.
André Rebouças
Rebouças, além de ter sido um dos mais importantes militantes do movimento abolicionista no Brasil, foi uma das maiores autoridades no país em engenharia hidráulica e ferroviária. Nasceu em 1838, filho de Antonio Rebouças, advogado, parlamentar e conselheiro do Império. Estudou nas melhores escolas do Rio de Janeiro, completando seus estudos na Europa, onde se especializou em fundações e obras portuárias. Participou na Guerra do Paraguai (1865-1870), como engenheiro.
Foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira contra a Escravidão. André Rebouças, também era geólogo, matemático, biólogo, astrônomo, higienista e filantropo. Morreu em 1898.
Cruz e Souza
João Cruz e Souza foi um grande personagem na luta abolicionista no país. Filho de pais forros, nasceu no dia 24 de novembro de 1861 em Florianópolis, era poeta e jornalista.
Defensor da abolição, utilizou seu talento como orador e poeta para denunciar o escravismo e a hipocrisia brasileira frente a escravidão. Suas obras consagradas, o tornaram um dos maiores expoentes do simbolismo brasileiro. Dentre seus escritos, destacam-se os livros Missal e Broquéis. Chegou a ser funcionário nomeado da Central de Ferro do Brasil. Morreu em 1898 de tuberculose.
Aqualtune
Aqualtune era uma princesa do Reino do Congo, foi trazida escravizada para o Brasil, logo que foi derrotada em guerra no interior do reinado. Quando desembarcada no Brasil em Recife, foi vendida e levada para o sul de Pernambuco. Não demorou a integrar os movimentos de fugas que explodiam no regime escravista, tornando-se uma liderança importante para os quilombos de Palmares.
Segundo o que aponta alguns estudos, Aqualtune era avó de Zumbi dos Palmares. Morreu queimada, quando já era idosa.
Mãe Menininha do Gantois
Mãe Menininha do Gantois nasceu em 10 de janeiro de 1864. Era neta de escravizados da tribo Kekeré, da Nigéria. Foi iniciada no candomblé, ainda criança, no terreiro fundado pela sua bisavó. Aos 28 anos de idade, como filha de Oxum, assumiu o cargo de maior hierarquia na religião. Conseguiu estabelecer interlocuções como várias personalidades, buscando o respeito da sociedade para a religião, muito perseguida pelo poder político.
Devido aos seus poderes espirituais e sua capacidade de agregar as pessoas, conquistou o respeito até mesmo de outras religiões. Tornou-se a mais respeitável mãe de santo da Bahia, onde até hoje funciona o terreiro do Gantois, fundado em 1849, por sua bisavó. Sempre divulgava o candomblé, explicando sobre a importância do mesmo. Sua vida religiosa foi marcada pela fé e bondade. De grande carisma, Mãe Menininha do Gantois tinha respeito de personalidades importantes, dentre as quais, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
Faleceu aos 92 anos, em 1986 na cidade de Salvador.
Tereza de Benguela
Tereza de Benguela foi uma liderança quilombola que viveu no século XVIII. Mulher de José Piolho, que chefiava o Quilombo do Piolho ou Quariterê, nos arredores de Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso. Quando seu marido morreu, Tereza assumiu o comando daquela comunidade quilombola, revelando-se uma líder ainda mais implacável e obstinada. Valente e guerreira ela comandou o Quilombo do Quariterê, este cresceu tanto sob seu comando que chegou a agregar índios bolivianos e brasileiros. Isso incomodou muito as autoridades das Coroas, espanhola e portuguesa. A Coroa Portuguesa, junto à elite local agiu rápido e enviou uma bandeira de alto poder de fogo para eliminar os quilombolas. Tereza de Benguela foi presa. Não se submetendo a situação de escravizada, suicidou-se.
Carro alegórico na Marquês de Sapucaí com a representação de Tereza de Benguela, a rainha do Quilombo do Piolho ou Quariterê
Em diversas situações, a história dos heróis negros e heroínas negras estão imbricadas à luta geral da população negra em contraposição ao escravismo e/ou outras várias formas de racismo presentes na sociedade brasileira. Mas é importante salientar que muitas dessas personagens continuam anônimas na história brasileira.

fonte: SANTOS, Ângela Maria dos & SILVA, João Bosco da(orgs.). História e Cultura Negra: Quilombos em Mato Grosso. Cuiabá: Gráfica Print Indústria e Editora ltda/SEDUC, 2009. pp. 32-4.
Do Blog Mestres da História


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A desigualdade social em nosso país tem cor!

No sentido de procurar esclarecer a tremenda desigualdade social em nosso país com relação a questão racial, colocamos alguns dados que desmistificam a falsa ideia da “democracia racial” no nosso país, como por exemplo: o rendimento médio dos homens não negro no Brasil 
é quase duas vezes e meia maior que o de homens negros e quase quatro vezes mais que as mulheres negras, segundo dados do IBGE, a partir de informações do PNAD .

A convivência entre estes atores se desenvolvia em um drama diário, acompanhado e testemunhado por muitos outros atores que, assim como eles, lutavam “pelo pão de cada dia”. Logo, cumpre-me apresentar a forma ritual como essa convivência complementar se viabilizava e, por fim, apontar para possibilidades de interpretação para duas categorias chaves inerentes àquele “processo ritual”: o derrame e o esculacho.

Nos chama a atenção nesses relatos o tom de absoluta naturalidade como foram veiculadas as histórias. Todavia, a liminaridade entre legalidade e ilegalidade em que viviam esses indivíduos não me podia passar despercebido. Nessa mesma direção, não  surgir como uma personagem envolvida nos conflito Adílio Cabral dos Santos. Geralmente como empreendedor de violência contra o personagem que e um dos raros caros que a Vitima trabalhador , negro...

"SUPERVIA ADMITE QUE AUTORIZOU TREM A PASSAR SOBRE CORPO DE HOMEM NO RIO"
Um trem passou por cima do corpo de um homem que havia sido atropelado por outro coletivo e estava estendido nos trilhos. Imagens mostram o momento em que o condutor, auxiliado por pelo menos outros dois funcionários que estão ao lado dos trilhos, passa pelo corpo na estação de Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro, na última terça-feira (28).
Há outras pessoas próximas aos trilhos, e os funcionários da empresa SuperVia, 
concessionária que administra o sistema, acenam para que o maquinista avance sobre o corpo. No dia do acidente, a empresa disse em nota que por volta das 17 horas agentes acionaram os Bombeiros para atender um homem que acessou a via irregularmente e foi atingido por um trem. A vítima é Adílio Cabral dos Santos, que havia pulado o muro e invadido o local dos trilhos. 

Vídeo mostra momento em que trem passa por cima do corpo de homem que já havia sido atropelado Segundo os Bombeiros, não foi feito chamado em relação à ocorrência, e que houve apenas um aviso, por volta das 19h15, para atender uma ocorrência de trauma não relacionada à morte, e que apenas durante o atendimento a equipe foi informada por funcionários de que havia um corpo na linha férrea. 
A Polícia Civil e a Agetransp, agência reguladora que fiscaliza os transportes no Rio de Janeiro, abriram investigação para apurar as responsabilidades. O episódio provocou a revolta do secretário estadual de Transporte, Carlos Roberto Osorio ( Será?...). Ele qualificou o caso como desumano e disse que a apuração vai verificar quem deu o comando e o motivo para que o trem passasse por cima do corpo. 

"Um absurdo, inaceitável. O centro de controle tem a visão de tudo que acontece no sistema, de que trem em cada trilho, e é ele que dá o comando ao maquinista. Se aquele trem estava irregularmente naquele trilho, alguma falha aconteceu e nós precisamos entender quem deu a autorização para que o trem prosseguisse, mesmo com o corpo na pista "


A exposição à violência e a tênue linha entre legalidade e ilegalidade Durante parte de minhas
viagens das percepções dos indivíduos acerca das instituições sociais, particularmente aquelas responsáveis pela segurança pública. Os discursos expressavam que a convivência com a violência...

“Se eles vem, eu não vou. Se eles estão num canto eu tô no outro. E assim vou passando o dia e levando pra casa o leite dos meninos” (Camelô falando de seu cotidiano nos trens)


"A respeito do Concurso de crimes tais como, Violação e profanação do código penal brasileiro (art.210)"

Concluindo:

Costuma-se dizer, no Brasil, que “Deus ajuda a quem cedo madruga”. A expressão busca inferir legitimidade social a quem trabalha. Toda uma rede social estaria disponível para o ator social que vive do trabalho. Geralmente, a crença neste adágio, talvez em função de processos políticos endógenos, associa legitimidade a direitos sociais que deveriam ser providos pelo Estado. Todavia, nem todos que acordam cedo são considerados oficialmente trabalhadores. Logo, o Estado por aqui não lhe confere direito social algum e, pior, pode não 
lhe reconhecer direitos civis. Conseqüentemente, há situações em que o arbítrio e a violência de indivíduos que se apropriam da representação estatal comprometem a expectativa dessa legitimidade.

Um afro abraço.



--
Postado por UNEGRO/Rio de Janeiro no UNEGRO- RIO DE JANEIRO em 7/31/2015 10:18:00 AM

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Origens das Favelas

Claudia Vitalino.
UNEGRO/RJ



Origens das Favelas

De maneira geral, as favelas surgiram pela necessidade de sobrevivência de uma população carente de recursos. Sem alternativa, os cidadãos foram construindo casas em terrenos não povoados. As comunidades cresceram com grande rapidez ao longo dos anos, graças, em parte, ao descaso do poder público.
A formação de favelas no Rio está ligada ao término do período escravocrata, no final do século XIX. Sem posse de terras e sem opções de trabalho no campo muitos dos escravos libertos deslocaram-se para o Rio de Janeiro, então capital federal. O grande contingente de famílias em busca de moradia e emprego provocou a ocupação informal em locais desvalorizados, de difícil acesso e sem infraestrutura urbana.
Com a Proclamação da República, em 1889, a elite e os administradores do Rio queriam apagar do seu passado os vestígios de uma cidade colonial. Cortiços sem condições sanitárias e povoados por ex-escravos foram demolidos na reforma de Pereira Passos. Sem ter outras opções de moradia os desabrigados foram obrigados a construir suas próprias casas. Começou então a ocupação dos morros centrais da Providência e de Santo Antônio, em 1893, seguida pelo Morro dos Telégrafos eMangueira, em 1900.

Com o passar dos anos, a modernização das zonas nobres da cidade continuou. As pequenas ruas e os casarões deram lugar a longas avenidas e construções arrojadas. Muitas casas foram demolidas, diminuindo a oferta de moradia e elevando o preço dos aluguéis. O fenômeno provocou o aumento da formação de favelas, para atender a população mais carente. 
Com uma rapidez incrível, as favelas foram se desenvolvendo em toda a zona sul, perto dos comércios e ao lado das regiões escolhidas para abrigar a nobreza e a elite. O Morro da Babilônia, entre a Praia Vermelha e a Praia do Leme, começou a ser ocupado em 1907. Dois anos depois apareceram favelas no Morro do Salgueiro, na Tijuca e na Mangueira. Em 1912, as comunidades já estavam instaladas em Copacabana e, logo depois, ocupavam também o Morro dos Cabritos, entre aLagoa e Copacabana, e o Morro Pasmado, em Botafogo.
Essa propagação das favelas nos bairros mais ricos parecia a única saída possível para a população pobre que precisava morar perto do local de trabalho. Num tempo em que apenas trens e bondes precários chegavam até as periferias da cidade, os nobres não queriam esperar por horas e horas seus empregados. Os morros eram uma solução cômoda também para elite. A alguns metros das mansões e jardins de Botafogo surgiram anos depois os primeiros barracos do Morro Santa Marta.

No entanto, desde o início do século XX as favelas foram vistas como um problema. Os morros provocavam medo e curiosidade, o que gerava desconhecimento sobre a situação. Em 1927, o arquiteto francês Alfred Agache apresentou um plano de urbanização e embelezamento para o Rio, em que propunha a transferência dos moradores das favelas por motivos sociais, estéticos e hierárquicos. Somente alguns projetos de Agache foram levados adiante, mas a ideia de que as comunidades precisavam ser eliminadas permaneceu.

Por volta de 1930, surgiram os primeiros loteamentos na zona oeste, como opção de moradia para a população de baixa renda. Em 1937, foi proibida a construção de novas favelas ou mesmo a melhoria das que já existiam. A lei vigorou até a década de 70.
Muitas favelas foram removidas neste período. Alguns moradores foram alojados em conjuntos habitacionais com uma estrutura precária, construídos em locais distantes do comércio da cidade. Esta constante locomoção e descaso com a população carente fez com que os cidadãos começassem a se organizar em associações para reivindicar seus direitos.
A Fundação Leão XII conseguiu implantar redes de água e luz em algumas favelas. A união entre a Igreja e o poder público deu origem à organização Cruzada São Sebastião, que também conseguiu melhorias com projetos de luz, água, esgoto e urbanização. Além disso, construiu um conjunto habitacional no Leblon conhecido como Cruzada, destinado aos moradores que residiam nas favelas removidas.

Até 1965, 30 mil pessoas haviam sido retiradas das favelas. O ápice da política de remoção ocorreu entre 1968 e 1975, quando 176 mil pessoas foram levadas para 35 mil unidades habitacionais. Muitas comunidades acabaram incendiadas e seus líderes desapareceram.
Houve casos dramáticos, como o da favela da Catacumba, que chegou a ter uma população superior a dez mil pessoas nos anos 60, mas foi removida em 1970. Por causa de sua localização, com vista privilegiada da Lagoa Rodrigo de Freitas, a comunidade sofreu especulação imobiliária e deu lugar a prédios de luxo. Pelo mesmo motivo foram extintas nos anos 60 as favelas da Praia do Pinto, de Macedo Sobrinho e da Ilha das Dragas, todas na região da Lagoa.
Em 1972 20% das favelas do Rio de Janeiro haviam sido eliminadas, o que não impediu que outras continuassem crescendo. Em 1974 o governo suspendeu o plano de erradicação, mas nenhuma outra política foi adotada, e as comunidades ficaram sujeitas ao abandono. Com o tempo, as moradias ganharam novas formas. Os barracos frágeis foram substituídos por construções feitas de tijolos e telhas. Desenvolveu-se, então, um mercado imobiliário dentro das favelas, com locais mais e menos valorizados, dependo dos serviços oferecidos.
Os governantes e administradores começaram a perceber que as velhas propostas de erradicação das favelas, com deslocamento e reassentamento dos cidadãos em áreas 
distantes, não eram mais a solução. Tais projetos demandavam um altíssimo custo financeiro e, além disso, rompiam relações sociais e econômicas dos moradores.

Em 1993 surgiu o Grupo Executivo de Assentamento Popular (GEAP). A entidade estabeleceu as bases para uma política habitacional, reconhecendo que o morar urbano é direito do cidadão, que a moradia não é apenas casa, mas integração à cidade, cabendo à coletividade prover a estrutura habitacional necessária, com serviços públicos, transporte, educação, saúde, cultura e lazer.

Neste mesmo ano, foi lançado um ambicioso projeto da Prefeitura de Rio em parceria com empresas privadas, o Favela-Bairro. Com o objetivo de integrar as favelas aos bairros, desenvolveu diversas reformas em mais de 150 comunidades. Urbanizou algumas áreas, criou vias de acesso, realizou obras de saneamento básico. Foi um dos primeiros projetos a se integrar com a população para saber as reais necessidades dos moradores. Durante o sucesso do programa, outras muitas favelas surgiram, o que gerou também algumas críticas.

Hoje o Rio de Janeiro tem quase mil favelas, e várias ações estão em andamento para melhorar a infraestrutura e o ambiente das comunidades. Projetos do governo, de empresas e de uma infinidade de ONGs. As favelas não são, nem de perto, o que eram na sua origem. Elas se desenvolveram, ganharam ofertas de comércio e serviços. O poder público finalmente começou a se envolver com seus problemas.

Todo o trabalho ainda não é suficiente. As carências da população ainda são enormes. As favelas não param de surgir e crescer, o que nos leva a pensar em ações preventivas que precisam ser realizadas. Não há dúvidas de que as obras de urbanização foram de extrema importância. Foram elas que possibilitaram a chegada de serviços como a coleta de lixo, os correios e o fornecimento de energia, entre outros. São estas obras que ainda hoje criam espaços públicos dentro das comunidades, criam condições de convivência e segurança com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), por exemplo.
A atuação das Forças Armadas é um capítulo à parte nos impasses das UPPs. Pela Constituição, os militares federais não poderiam atuar em policiamento de rotina. Para atender ao pleito de Pezão, o Ministério da Defesa criou, há oito meses, a Diretriz Ministerial número 09, com o objetivo de dar amparo legal à intervenção. “Não se pode dizer que a atuação do Exército seja ilegal, pois foram criadas leis. Mas é inconstitucional”, aponta o advogado João Tancredo, presidente do Instituto Defensores de Direitos Humanos.

O malabarismo jurídico não garantiu à comunidade a paz esperada. São requentes os confrontos entre traficantes da Maré e soldados do Exército. Segundo informações da “Força
de Pacificação”, em mais de sete meses foram presos 390 suspeitos, além de 150 menores, e realizadas 241 preensões de drogas. A truculência continua a ser uma das reclamações dos moradores. 

Se liga:Inúmeros relatos e várias manifestações populares em favelas de UPP afirmam a presença de policiais corruptos, autoritários, torturadores e matadores, que só fazem aumentar o genocídio da juventude negra dentro das favelas de UPP. Vemos que a instituição Estado, no Rio de Janeiro, funciona sob as bases na- quilo que Foucault (1993) chama de biopoder; logo, sua função homicida é assegurada pelo racismo, que busca definir a legitimidade de tais ações. O racismo inscrito no Estado tem importância vital na gestão dos territórios e das populações, pois representa a condição com a qual a polícia pode exercer o direito de matar, humilhar e amedrontar, segundo a linguagem foucaultiana... 

 O Exército informa que nenhum desvio de conduta de seus soldados foi comprovado.Todas essas ações iniciadas no passado nos dão agora condições de encontrar a raiz dos problemas dessa população. Está na hora de dar condições para que essa população cresça, para que consiga alcançar o mercado de trabalho e se desenvolver dentro dele. Está na hora de ensinar a sociedade que estes moradores de favelas fazem parte da cidade, que a cidade não vive sem eles e que eles podem e devem crescer e melhorar suas vidas. Temos que unir esforços e unir públicos para melhorar a qualidade de vida dessa população que faz a cidade girar...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A UNEGRO E O NEAFRO TAMBORES DOS MONTES FAZEM HOMENAGEM AS MULHERES NEGRAS NO DIA DA ÁFRICA 25 DE MAIO. TROFÉU RAINHA NZINGA,

Programação do Festival de Cultura e Arte Negra -  FECAN 2015

Sexta feira dia 22 recepção dos convidados 

Sábado dia 23: Visitas ao mercado municipal e a casa do artesão

Domingo dia 24: Oficinas de:Flores e Bonecas, ministrada por Ivone Diniz, na feira de artesanato e Jongo ministrada por Luanda Nascimento, na Praça da Matriz de Montes Claros - MG


Dia 25 de Maio: na parte da manhã oficina de: Dança afro ministrada por Madu Santos , flores, bonecas e chaveiros por Ivone Diniz na Escola Francisco Peres no Povoado de São Geraldo II Montes Claros - MG
Na Comunidade de Canto do Engenho Roda de Conversa com Sandra Helena, na Escola Municipal Nair Fonseca

Noite
Adicionar legenda
Lançamento do livro Zumbi dos Palmares em Cordel. Editora MAZZA Edições. Madu Costa. Ilustrador: Josias Marinho, palestras e debates, homenagens as mulheres negras de destaques e apresentação cultural com a musicista Maristela Cardoso com o espetáculo Afro lírico, prédio 2 auditório do Centro de Ciências Humanas - CCH Unimontes a parti das 18.30h
Dia 26 de Maio: Roda de Conversa no Espaço da Associação Aberé  Capoeira com participação da Convidada Sandra Helena
Dia 27 de Maio: Oficina de Culinária Africana ministrada por Lumpini na FETAEMG polo norte de minas finalizando com comida di preto
Dia 28 de Maio: Palestra na Faculdade Prisma tema Diversidade Étnico Raciais Com Hilário Bispo
as 19h.



NOMES DAS MULHERES HOMENAGEADAS NO TROFÉU RAINHA NZINGA 2015
Allana Cardoso
Ana Cristina dos Santos Duarte
Ana Maria
Benilda Brito
Catia Souza
Claudia Vitalino
Cleide Hilda
Cristiane de Sousa Francisco Camilo
Denise das Graças Bispo de Moura
Denise Pacheco
Egbonmy Conceição Reis
Elenice Dias Amorim
Eliisabel Santana
Estela Cardoso
Fátima Xavier ( Fatinha Xavier )
Gracy Mary Moreira
Ivone Diniz
Larissa Lima
Liege Rocha
Luanda Nascimento
Luba Fee
Lucélia Aguiar
Lucia Gomes
Luciana Axé
Luciana Almeida Moreira
Madu Costa
Madu Santos
Makota Kizandembu TC
Marcia Braga Margareth Rose
Maria Catarina Laborê
Maria do Socorro
Maria Natalina
Marilene Pereira
Marilene Soares
Marisa Nzinga
Maristela Cardoso
Patrícia Freitas
Regina Lopes
Sandra Helena
Sônia Aparecida
Sônia Oliveira
Tayná Keyty
Teresinha Ferreira
Teresinha silva
Valeria Silva
Vera Lucia
Vera Silva santos
Vera Nice dos Santos

domingo, 10 de maio de 2015

POVO DE TERREIRO - MEU POVO GUERREIRO


A votação na CCJ no RS do PL 21/2015 que discrimina as tradições de matriz africana, ontem dia 28 de abril, foi marcada por manifestações lucidas de quase todos os membros da comissão apontando de forma inconteste a inconstitucionalidade do PL e sua maioria denunciando os ataques sofridos virtualmente e verbalmente dos ditos ativistas da causa animal.
Importante salientar o nosso profundo respeito ao verdadeiro ativismo da causa animal que é composto por pessoas dotadas de humanidade e verdadeiro amor, que acolhe pessoas de diversas culturas religiosas e não é baseado e fundamentalismo barato. Diferem-se sem dúvidas, do perfil deste bando de malucos que foram para a assembleia manifestar seu ódio, desumanidade e racismo contra o povo de terreiro que maculam uma causa tão nobre e reconhecida mundialmente que é a defesa dos animais. É lamentável.
Estes quando perceberam a derrota iminente, entraram em desespero e partiram para baderna e agressões inclusive físicas, numa tentativa frenética de barrar a votação, o que não conseguiram.
Vencemos por 11 votos a 1. A dignidade e união do nosso povo venceu, pelo manos esta etapa., pois segundo regimento da CCJ o PL foi redistribuído para relatoria de outro deputado que devera dar o seu parecer pela inconstitucionalidade e no próximo dia 05 de maio teremos nova votação e deveremos lotar mais uma vez a Assembleia Legislativa demonstrando nossa força política.

Não entendemos a postura do Presidente da CCJ que não quis levar a votação para o Teatro Dante Baroni novamente em respeito as centenas de Autoridades civilizatórias de Matriz Africana presentes e instituiu de forma arbitrária um processo de senha para ingresso na votação, o que no meu entendimento é um atentado a democracia e reafirmação do racismo e colonialismo peculiar de um sistema branco excludente.
Tentaram barrar minha entrada e também da Mãe Vera, eu Presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Estado e Mãe Vera Secretaria Geral do Conselho. Não conseguiram, pois já estamos descolados na luta contra estas barreiras imposta por estes pensamentos colonialistas.
Nossos parlamentares deram exemplo de responsabilidade e compromisso com a verdade e seriedade que deve ser uma comissão que deve avaliar cada projeto de lei que tramite na perspectiva da soberania de nossa constituição.
É inconstitucional e ponto final.

O Rio Grande do Sul é a Terra dos Orixás, dos caboclos, dos pretos velhos, dos exus e Bomba Giras. É o estado onde o Povo mais se assume do Axé e que abriga o maior numero de terreiros do Brasil e terão que nos engolir.

Nosso povo está acordado e atento!
A luta continua!
Quem tem Ori, não Baixa a cabeça!
Quem é de axé, diz que é!
Quem é de axé, quem é de sarava, vem com a gente!


Baba Diba de iyemonja
Presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do RS
Acadêmico de Saúde Coletiva pela UFRGS
Coordenador Estadual da Renafro-Saúde –RS
Vice Presidente do Africanamente – Centro de Pesquisa, resgate e Preservação de Tradições Afrodescentes.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A rainha Ginga, considerada a fundadora do reino de Angola

Dona Ana de Sousa ou Ngola Ana Nzinga Mbande ou Rainha Ginga (c. 1583 — Matamba, 17 de dezembro de 1663) foi uma rainha (“Ngola“) dos reinos do Ndongo e de Matamba, no Sudoeste de África, no século XVII. O seu título real na língua quimbundo – “Ngola” -, foi o nome utilizado pelos portugueses para denominar aquela região (Angola).
Nzinga viveu durante um período em que o tráfico de escravos africanos e a consolidação do poder dos portugueses na região estavam a crescer rapidamente. Era filha de Nzinga a Mbande Ngola Kiluanje e de Guenguela Cakombe, e irmã do NgolaNgoli Bbondi (o régulo de Matamba), que tendo se revoltado contra o domínio português em 1618, foi derrotado pelas forças sob o comando de Luís Mendes de Vasconcelos. O seu nome surge nos registros históricos três anos mais tarde, como uma enviada de seu irmão, numa conferência de paz com o governador português de Luanda. Após de anos de incursões portuguesas para capturar escravos, e entre batalhas intermitentes, Nzinga negociou um tratado de termos iguais, converteu-se ao cristianismo para fortalecer o tratado e adaptou o nome português de Dona Ana de Sousa. No ano subseqüente, entretanto, reiniciaram-se as hostilidades. As fontes divergem quanto ao motivo:
•Ngoli Bbondi teria se revoltado novamente, fazendo grandes ofensas aos portugueses e derrotando as tropas do governador português João Correia de Sousa em 1621. Dona Ana, entretanto, teria permanecido fiel aos portugueses, a quem teria auxiliado por vingança ao assassinato, pelo irmão, de um filho seu. Tendo envenenado o irmão, sucedeu-lhe no poder.
•tendo os termos do tratado sido rompidos por Portugal, Dona Ana pediu a seu irmão para interceder e lutar contra a invasão portuguesa. Diante da recusa de seu irmão, Nzinga, pessoalmente, formou uma aliança com o povo Jaga, desposando o seu chefe, e subseqüentemente conquistando o reino de Matamba. Ganhou notoriedade durante a guerra por liderar pessoalmente as suas tropas e por ter proibido as suas tropas de a tratarem como “Rainha”, preferindo que se dirigissem a ela como “Rei”. Em 1635 encontrava-se disponível para formar uma coligação com os reinos do Congo, Kassanje, Dembos e Kissama. Como soberana, rompeu os compromissos com Portugal, abandonando a religião católica e praticando uma série de violências não só contra os portugueses, mas também contra as populações tributárias de Portugal na região. O governador de Angola, Fernão de Sousa, moveu-lhe guerra exemplar, derrotando-a em batalha em que lhe matou muita gente e aprisionando-lhe duas irmãs, Cambe e Funge. Estas foram trazidas para Luanda e batizadas, respectivamente com os nomes de Bárbara e Engrácia, tendo retornado, em 1623, para Matamba.
A rainha manteve-se em paz por quase duas décadas até que, diante do plano de conquista de Angola por forças da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, percebeu uma nova oportunidade de resistir. Traída eventualmente pelos Jaga, formou uma aliança com os holandeses que à época ocupavam boa parte da Região Nordeste do Brasil. Com o auxílio das forças de Nzinga, os holandeses conseguiram ocupar Luanda, de 1641 a 1648.
Em Janeiro de 1647, Gaspar Borges de Madureira derrotou as forças de Nzinga, aprisionando sua irmã, D. Bárbara. Com a reconquista definitiva de Angola pelas forças portuguesas de Salvador Correia de Sá e Benevides, retirou-se para Matamba, onde continuou a resistir.
Em 1657, um grupo de missionários capuchinhos italianos convenceu-na a retornar à fé católica, e então, o governador de Angola, Luís Martins de Sousa Chichorro, restitui-lhe a irmã, que ainda era mantida cativa.
Em 1659, Dona Ana assinou um novo tratado de paz com Portugal. Ajudou a reinserir antigos escravos e formou uma economia que ao contrário de outras no continente, não dependia do tráfico de escravos. Dona Ana faleceu de forma pacífica aos oitenta anos de idade, como uma figura admirada e respeitada por Portugal.
Após a sua morte, 7000 mil soldados da Rainha Ginga, foram levados para o Brasil e vendidos como escravos. Os portugueses passaram a controlar a área em 1671. Em certas áreas, Portugal não obteve controle total até o século XX, principalmente devido ao seu tipo de colonização, centrado no litoral. No Brasil, o nome da Rainha Ginga é referido em vários folguedos da Festa de Reis dos negros do Rosário, onde reis do congo católicos lutam contra reis que não aceitam o cristianismo.
Dona Ana de Sousa possuía muitas variações do seu nome que, em alguns casos, eram completamente distintos. Entre eles (mas não apenas, registram: Rainha Nzinga, Nzinga I, Rainha Nzinga Mdongo, Nzinga Mbandi, Nzinga Mbande, Jinga, Singa,Zhinga, Ginga, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga de Matamba, Rainha Nzingha de Ndongo, Ann Nzingha, Nxingha, Mbande Ana Nzingha e Ann Nzingha.

Publicado por Eileen Morais Salvação Barreto
Livro conta história da rainha Ginga, heroína angolana
por PEDRO ROSA MENDES, Paris 26 Julho 2010


 Obra conta como Ginga reinou 40 anos e resistiu durante 30 aos portugueses.
A rainha Ginga (1582-1663) é apresentada como “uma protonacionalista angolana, na luta contra o poder colonial português, e uma heroína de todo o continente” numa nova obra… de referência publicada em França sobre “a mulher mais famosa de África”.
Ana de Sousa N’Jinga M’Bandi, a célebre rainha Ginga, “é uma das figuras mais fascinantes da história africana”, resumiu o historiador e editor francês Michel Chandeigne, entrevistado pela Lusa em Paris.
Michel Chandeigne, fundador da Livraria Portuguesa em Paris e especialista da história da expansão portuguesa, acaba de publicar N’Jinga, Rainha de Angola, numa edição de referência do relato do padre Antonio Cavazzi de Monteccuccolo (1621-1678).
O volume, de 416 páginas, é a história da conversão de “uma rainha terrível” ao catolicismo, considerada durante muito tempo como a força anticristã mais terrível da África Central, explicou Michel Chandeigne à Lusa. Ginga reinou durante 40 anos e resistiu quase 30 aos portugueses, com as suas tropas de Jagas, “uma seita cruel”.
O relato de Cavazzi, um missionário que desprezava os africanos mas que paradoxalmente estudou em detalhe os seus cultos, é também o resultado do fascínio que a heroína angolana exercia sobre os seus contemporâneos. O fascínio foi partilhado pelo missionário que devia salvá-la para o Deus cristão e que foi seu confessor. Cavazzi oficiou ele mesmo as exéquias da “Rainha dos Jagas”. “Ginga era uma mulher inteligente. Todos, mesmo os seus inimigos da época, têm um discurso unânime sobre isso. Tinha uma liberdade sexual total. Dormia com escravos que estavam à sua disposição sob ameaça de morte se tivessem encontros com qualquer outra mulher”, recorda Chandeigne. “Ginga tende a ficar na história africana como a grande heroína do continente. Morreu muito velha. Era uma mulher com uma força de homem, digamos, que comandou as suas tropas no campo de batalha durante muitos anos. É uma figura proto nacionalista de resistência aos portugueses e à opressão”, acrescenta também o historiador francês. “Ao contrário do que se passou no Congo, onde a Igreja local estava nas mãos da elite do país e onde a população abraçou por sua vontade o cristianismo, em Angola a adesão à nova fé foi reticente e forçada”, escrevem no prefácio ao livro Linda Heywood e John K. Thornton, dois dos maiores especialistas do período abrangido pela vida de Ginga. O testemunho de Cavazzi “é excepcional porque o homem era muito atento às práticas culturais, aos cultos dos africanos, aos vestidos, à vida quotidiana. É um testemunho ímpar na história das missões e temos também desenhos com descrição de sacrifícios, práticas de justiça, penas de morte”, iconografia que corresponde aos relatos de grande crueldade que atravessam a obra. A edição da Chandeigne sobre a rainha Ginga, resultado de dez anos de trabalho, corresponde à primeira versão da Histórica descrizione de tre regni Congo, Matamba ed Angola, manuscrito descoberto em Modena (Itália) nos arquivos da família Araldi, em 1969. É deste manuscrito “perdido” que Chandeigne reproduz as aquarelas com cenas da vida na Matamba seiscentista.“Era uma mulher de poder, uma mulher livre, uma grande heroína africana”, resume Michel Chandeigne. “Espero que com este livro o fenômeno ultrapasse as fronteiras do mundo lusófono.”

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Nota de Repudio do Movimento Negro contra a PEC 171/93

As organizações do movimento negro que subscrevem essa nota manifestam o mais profundo repúdio a PEC 171/93 que reduz a maioridade penal dos 18 para 16 anos.
Consideramos essa PEC uma proposta demagógica, reacionária e busca saída fácil à calamidade da violência, crescente nos grandes e pequenos centros urbanos de todo o país. Além de ferir preceito constitucional e atentar contra cláusula pétrea da Constituição, são várias as razões que nos levam a nos contrapor a mais essa faceta do genocídio da juventude negra, pobre e periférica:
1. Não atuam sobre as principais causas da violência: desigualdade socioeconômica; sucateamento da educação; ausência de investimento em cultura e esporte para crianças, adolescentes e jovens; falta de oportunidade e acesso ao trabalho descente.
2. Menos de 2% dos crimes contra a vida são praticados por menores de 18 anos.
3. O sistema prisional brasileiro são verdadeiros campos de concentração, violadores de direitos humanos básicos. Além de não ressocializar o apenado, se constitui, na prática, em escolas de crime.
4. O Estatuto da Criança e do adolescente prevê medidas disciplinares aos adolescentes em conflito com a lei, sendo uma inverdade o argumento de que ele favorece a impunidade.
5. Os alvos prioritários da violência civil e do Estado (polícias militar e civil) são os jovens negros. Nossa expectativa é que o Congresso Nacional rejeite a PEC 171/93 e abrace uma agenda de avanços em direitos e desenvolvimento para o país, incorporando as principais reivindicações dos movimentos sociais e do movimento negro, tais como: reforma política com fim do financiamento privado de campanha e fim da sub-representação de negros, mulheres e jovens nos espaços de poder e decisão; reforma da comunicação com democratização do acesso aos meios e da produção de conteúdo; reforma agrária e total regularização das terras quilombolas; políticas públicas que atenda a juventude negra, socialmente vulnerável, pobre e de periferia; implantação do Estatuto da Igualdade Racial.
Assinam:
1. Agentes de Pastoral Negros – APN´S
2. Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras de São Paulo – APSMNSP
3. Associação Afro Cultural de Matriz Africana São Jerônimo
4. Associação Brasileira de Pesquisadores Negros - ABPN
5. Associação Nacional das Baianas de Acarajé
6. Bocada Forte Hip Hop
7. Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afrobrasileira – CENARAB
8. Coletivo de Entidades Negras – CEN
9. Coletivo Feminista Baré do Amazonas
10. Coletivo Nacional de Juventude Negra – ENEGRECER
11. Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas – CONAQ
12. Coordenação Nacional de Entidades Negras – CONEN
13. Federação Nacional das Associações de Pessoas com Doença Falciforme – FENAFAL
14. Fórum de Juventude Negra do Amazonas
15. Fórum Nacional de Juventude Negra - FONAJU
16. Fórum Nacional de Mulheres Negras – FNMN
17. Instituto Cultural Afro Mutalembê - Amazonas
18. Instituto Padre Batista
19. Instituto Palmares de Promoção da Igualdade
20. Movimento Negro Unificado – MNU
21. Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP
22. Rede Afro LGBT
23. Rede Amazônia Negra – RAN
24. Rede de Jovens do Nordeste
25. União de Negros Pela Igualdade - UNEGRO
26. Instituto das Diversidades e de Desenvolvimento Social e Cultural do Brasil- Motumbá- IDESC MOtumbá.


sábado, 4 de abril de 2015

SOU CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL


Eu sou contra a redação da maioridade penal. Sou a favor de escolas públicas de qualidade em todos esses rincões de pobreza do país. Também sou favorável a construção de creches e salas de cultura e lazer, onde os jovens pobres possam ter acesso a um mundo novo. Diferente da realidade de violência onde vivem. Investir em educação, lazer e cultura permite devolver ao jovem o direito de sonhar com um futuro melhor. A universalização dessas oportunidades fortalece a cidadania e resgata o jovem da situação de iniquidade em que vive com sua família. Quando tem família, no sentido estrito da palavra. Família que o acolha, que o respeite que o estimule e que lhe dê dignidade. É nisso que acredito. É isso que defendo. E aposto. É uma posição conformista – e egoísta – segregar jovens de 16 e 17 anos nos presídios desumanos que vemos em todos os estados. Submetê-los a toda forma de abuso, de violência, agravando ainda mais sua condição de exclusão social. A realidade presente no sistema penal brasileiro não nos permite acreditar no princípio da ressocialização desses adolescentes. Ainda mais quando os levamos a conviver com apenados maior de idade, num espaço físico onde grassa todo tipo de violência. Insistir nesse processo é tornar utópico o esforço pela sua recuperação para o convívio social. Essa situação só o tornará mais violento, agressivo, sedento de vingança contra a sociedade e o próprio sistema que o condenou. É limar qualquer chance de sociabilidade. E num sistema penal que é geralmente mais generoso e tolerante com os filhos das classes média e rica. Por que o SEU filho (da classe média ou alta) pode ter acesso a boas escolas, atividades culturais e de lazer, e ainda assim pode cometer erros e o Estado tem que ser flexível com ele (claro, com o auxílio de um bom advogado)?
O filho da empregada, da faxineira, do pedreiro, dos pobres, dos “de cor”... ah, esses jovens não têm jeito. Não teriam recuperação. São marginais desde o nascimento. Mas o sistema ignora – ou finge desconhecer – que a maioria não tem estrutura familiar, vive no meio de traficantes e bandidos. É lógico que não vai virar “boa gente”.

Será?
Os que bradam a favor da redução da maioridade penal ... eu faço apenas uma pergunta: E depois que esses jovens saírem dos presídios? Ah, ninguém pensa nisso, não é mesmo!?. Dá trabalho pensar. Pois é. Mas a questão não está no encarceramento desses jovens e sim nas consequências de uma prisão inconsequente. Não se pode negar a capacidade de discernimento de um jovem de 16 anos sobre o CERTO e o ERRADO. E vou além. Para aqueles que desconhecem o ECA, no Brasil, mesmo uma criança de 12 anos já pode responder pelo ato infracional e sofrer as sanções das medidas socioeducativas. Só que, infelizmente, essas penas não ressocializam ninguém e muito menos educam. Há certo discernimento entre os jovens, mas não há a plenitude de certos aspectos da socialização. Aos 16 anos ainda há a forte influência dos grupos de convivência e a necessidade de pertencimento e aceitação entre os pares. Outra questão: como fica a nossa sociedade de consumo? A questão do uso abusivo de drogas? Do individualismo exacerbado, que alimenta o egoísmo e a competição a qualquer custo, entre outros valores que são reforçados diariamente pelos grupos sociais e pelos meios de comunicação de massa? O programa de televisão valoriza mais o jovem que TEM. O jovem na vida real que não tem, quer ter para existir. Para ganhar visibilidade.
É muito cômodo para setores privilegiados pensar na redução da maioridade penal apenas sob a ótica do encarceramento. Afinal, tem 16 anos? Cometeu crime? Joga às demais feras no presídio. Mas esse discurso é totalmente falacioso e vazio. Como é hipocrisia alegar que esses adolescentes são usados pelos marginais para praticar crimes. Ora, se isso soa lógico, é claro que os criminosos recorrerão aos menores de 14 e 15 anos a partir de agora. Se o tráfico seduz o jovem de 16 anos para a prática de crimes, com a sua imputação penal nada impede que os traficantes passem a arregimentar crianças de 8 anos de idade, por exemplo. Então a única solução é prender? Será que não há uma falha da sociedade nesse processo? Será que o convívio familiar é realmente acolhedor e responsável? Será que a solução para o problema não estaria no Direito de Família e no Código Civil? E não nos Códigos Penal e de Processo Penal? Por que não instituir mecanismos de maior responsabilização das famílias com seus filhos? Agravar, por exemplo, as penas com a omissão paterna e materna na criação dos filhos?
O que racional e lógico é nos debruçarmos sobre as causas que levam os adolescentes a praticarem ilicitudes e avaliarmos, principalmente, as consequências decorrentes dessa decisão equivocada. Marginalizar e encarcerar jovens de origem humilde, geralmente preto ou pardo, é uma solução abjeta. É buscar apenas uma “limpeza” paliativa e imediatista.

A Mulher Negra, por Maria Nilza da Silva

A Mulher Negra
Maria Nilza da Silva
A situação da mulher preta no Brasil de hoje manifesta um prolongamento da sua realidade vivida no período de escravidão com poucas mudanças, pois ela continua em último lugar na escala social e é aquela que mais carrega as desvantagens do sistema injusto e racista do país. Inúmeras pesquisas realizadas nos últimos anos mostram que a mulher preta apresenta menor nível de escolaridade, trabalha mais, porém com rendimento menor, e as poucas que conseguem romper as barreiras do preconceito e da discriminação racial.
A mulher preta ao longo de sua história foi a “espinha dorsal” de sua família, que muitas vezes constitui-se dela mesma e dos filhos.