domingo, 10 de maio de 2015

POVO DE TERREIRO - MEU POVO GUERREIRO


A votação na CCJ no RS do PL 21/2015 que discrimina as tradições de matriz africana, ontem dia 28 de abril, foi marcada por manifestações lucidas de quase todos os membros da comissão apontando de forma inconteste a inconstitucionalidade do PL e sua maioria denunciando os ataques sofridos virtualmente e verbalmente dos ditos ativistas da causa animal.
Importante salientar o nosso profundo respeito ao verdadeiro ativismo da causa animal que é composto por pessoas dotadas de humanidade e verdadeiro amor, que acolhe pessoas de diversas culturas religiosas e não é baseado e fundamentalismo barato. Diferem-se sem dúvidas, do perfil deste bando de malucos que foram para a assembleia manifestar seu ódio, desumanidade e racismo contra o povo de terreiro que maculam uma causa tão nobre e reconhecida mundialmente que é a defesa dos animais. É lamentável.
Estes quando perceberam a derrota iminente, entraram em desespero e partiram para baderna e agressões inclusive físicas, numa tentativa frenética de barrar a votação, o que não conseguiram.
Vencemos por 11 votos a 1. A dignidade e união do nosso povo venceu, pelo manos esta etapa., pois segundo regimento da CCJ o PL foi redistribuído para relatoria de outro deputado que devera dar o seu parecer pela inconstitucionalidade e no próximo dia 05 de maio teremos nova votação e deveremos lotar mais uma vez a Assembleia Legislativa demonstrando nossa força política.

Não entendemos a postura do Presidente da CCJ que não quis levar a votação para o Teatro Dante Baroni novamente em respeito as centenas de Autoridades civilizatórias de Matriz Africana presentes e instituiu de forma arbitrária um processo de senha para ingresso na votação, o que no meu entendimento é um atentado a democracia e reafirmação do racismo e colonialismo peculiar de um sistema branco excludente.
Tentaram barrar minha entrada e também da Mãe Vera, eu Presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Estado e Mãe Vera Secretaria Geral do Conselho. Não conseguiram, pois já estamos descolados na luta contra estas barreiras imposta por estes pensamentos colonialistas.
Nossos parlamentares deram exemplo de responsabilidade e compromisso com a verdade e seriedade que deve ser uma comissão que deve avaliar cada projeto de lei que tramite na perspectiva da soberania de nossa constituição.
É inconstitucional e ponto final.

O Rio Grande do Sul é a Terra dos Orixás, dos caboclos, dos pretos velhos, dos exus e Bomba Giras. É o estado onde o Povo mais se assume do Axé e que abriga o maior numero de terreiros do Brasil e terão que nos engolir.

Nosso povo está acordado e atento!
A luta continua!
Quem tem Ori, não Baixa a cabeça!
Quem é de axé, diz que é!
Quem é de axé, quem é de sarava, vem com a gente!


Baba Diba de iyemonja
Presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do RS
Acadêmico de Saúde Coletiva pela UFRGS
Coordenador Estadual da Renafro-Saúde –RS
Vice Presidente do Africanamente – Centro de Pesquisa, resgate e Preservação de Tradições Afrodescentes.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A rainha Ginga, considerada a fundadora do reino de Angola

Dona Ana de Sousa ou Ngola Ana Nzinga Mbande ou Rainha Ginga (c. 1583 — Matamba, 17 de dezembro de 1663) foi uma rainha (“Ngola“) dos reinos do Ndongo e de Matamba, no Sudoeste de África, no século XVII. O seu título real na língua quimbundo – “Ngola” -, foi o nome utilizado pelos portugueses para denominar aquela região (Angola).
Nzinga viveu durante um período em que o tráfico de escravos africanos e a consolidação do poder dos portugueses na região estavam a crescer rapidamente. Era filha de Nzinga a Mbande Ngola Kiluanje e de Guenguela Cakombe, e irmã do NgolaNgoli Bbondi (o régulo de Matamba), que tendo se revoltado contra o domínio português em 1618, foi derrotado pelas forças sob o comando de Luís Mendes de Vasconcelos. O seu nome surge nos registros históricos três anos mais tarde, como uma enviada de seu irmão, numa conferência de paz com o governador português de Luanda. Após de anos de incursões portuguesas para capturar escravos, e entre batalhas intermitentes, Nzinga negociou um tratado de termos iguais, converteu-se ao cristianismo para fortalecer o tratado e adaptou o nome português de Dona Ana de Sousa. No ano subseqüente, entretanto, reiniciaram-se as hostilidades. As fontes divergem quanto ao motivo:
•Ngoli Bbondi teria se revoltado novamente, fazendo grandes ofensas aos portugueses e derrotando as tropas do governador português João Correia de Sousa em 1621. Dona Ana, entretanto, teria permanecido fiel aos portugueses, a quem teria auxiliado por vingança ao assassinato, pelo irmão, de um filho seu. Tendo envenenado o irmão, sucedeu-lhe no poder.
•tendo os termos do tratado sido rompidos por Portugal, Dona Ana pediu a seu irmão para interceder e lutar contra a invasão portuguesa. Diante da recusa de seu irmão, Nzinga, pessoalmente, formou uma aliança com o povo Jaga, desposando o seu chefe, e subseqüentemente conquistando o reino de Matamba. Ganhou notoriedade durante a guerra por liderar pessoalmente as suas tropas e por ter proibido as suas tropas de a tratarem como “Rainha”, preferindo que se dirigissem a ela como “Rei”. Em 1635 encontrava-se disponível para formar uma coligação com os reinos do Congo, Kassanje, Dembos e Kissama. Como soberana, rompeu os compromissos com Portugal, abandonando a religião católica e praticando uma série de violências não só contra os portugueses, mas também contra as populações tributárias de Portugal na região. O governador de Angola, Fernão de Sousa, moveu-lhe guerra exemplar, derrotando-a em batalha em que lhe matou muita gente e aprisionando-lhe duas irmãs, Cambe e Funge. Estas foram trazidas para Luanda e batizadas, respectivamente com os nomes de Bárbara e Engrácia, tendo retornado, em 1623, para Matamba.
A rainha manteve-se em paz por quase duas décadas até que, diante do plano de conquista de Angola por forças da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, percebeu uma nova oportunidade de resistir. Traída eventualmente pelos Jaga, formou uma aliança com os holandeses que à época ocupavam boa parte da Região Nordeste do Brasil. Com o auxílio das forças de Nzinga, os holandeses conseguiram ocupar Luanda, de 1641 a 1648.
Em Janeiro de 1647, Gaspar Borges de Madureira derrotou as forças de Nzinga, aprisionando sua irmã, D. Bárbara. Com a reconquista definitiva de Angola pelas forças portuguesas de Salvador Correia de Sá e Benevides, retirou-se para Matamba, onde continuou a resistir.
Em 1657, um grupo de missionários capuchinhos italianos convenceu-na a retornar à fé católica, e então, o governador de Angola, Luís Martins de Sousa Chichorro, restitui-lhe a irmã, que ainda era mantida cativa.
Em 1659, Dona Ana assinou um novo tratado de paz com Portugal. Ajudou a reinserir antigos escravos e formou uma economia que ao contrário de outras no continente, não dependia do tráfico de escravos. Dona Ana faleceu de forma pacífica aos oitenta anos de idade, como uma figura admirada e respeitada por Portugal.
Após a sua morte, 7000 mil soldados da Rainha Ginga, foram levados para o Brasil e vendidos como escravos. Os portugueses passaram a controlar a área em 1671. Em certas áreas, Portugal não obteve controle total até o século XX, principalmente devido ao seu tipo de colonização, centrado no litoral. No Brasil, o nome da Rainha Ginga é referido em vários folguedos da Festa de Reis dos negros do Rosário, onde reis do congo católicos lutam contra reis que não aceitam o cristianismo.
Dona Ana de Sousa possuía muitas variações do seu nome que, em alguns casos, eram completamente distintos. Entre eles (mas não apenas, registram: Rainha Nzinga, Nzinga I, Rainha Nzinga Mdongo, Nzinga Mbandi, Nzinga Mbande, Jinga, Singa,Zhinga, Ginga, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga de Matamba, Rainha Nzingha de Ndongo, Ann Nzingha, Nxingha, Mbande Ana Nzingha e Ann Nzingha.

Publicado por Eileen Morais Salvação Barreto
Livro conta história da rainha Ginga, heroína angolana
por PEDRO ROSA MENDES, Paris 26 Julho 2010


 Obra conta como Ginga reinou 40 anos e resistiu durante 30 aos portugueses.
A rainha Ginga (1582-1663) é apresentada como “uma protonacionalista angolana, na luta contra o poder colonial português, e uma heroína de todo o continente” numa nova obra… de referência publicada em França sobre “a mulher mais famosa de África”.
Ana de Sousa N’Jinga M’Bandi, a célebre rainha Ginga, “é uma das figuras mais fascinantes da história africana”, resumiu o historiador e editor francês Michel Chandeigne, entrevistado pela Lusa em Paris.
Michel Chandeigne, fundador da Livraria Portuguesa em Paris e especialista da história da expansão portuguesa, acaba de publicar N’Jinga, Rainha de Angola, numa edição de referência do relato do padre Antonio Cavazzi de Monteccuccolo (1621-1678).
O volume, de 416 páginas, é a história da conversão de “uma rainha terrível” ao catolicismo, considerada durante muito tempo como a força anticristã mais terrível da África Central, explicou Michel Chandeigne à Lusa. Ginga reinou durante 40 anos e resistiu quase 30 aos portugueses, com as suas tropas de Jagas, “uma seita cruel”.
O relato de Cavazzi, um missionário que desprezava os africanos mas que paradoxalmente estudou em detalhe os seus cultos, é também o resultado do fascínio que a heroína angolana exercia sobre os seus contemporâneos. O fascínio foi partilhado pelo missionário que devia salvá-la para o Deus cristão e que foi seu confessor. Cavazzi oficiou ele mesmo as exéquias da “Rainha dos Jagas”. “Ginga era uma mulher inteligente. Todos, mesmo os seus inimigos da época, têm um discurso unânime sobre isso. Tinha uma liberdade sexual total. Dormia com escravos que estavam à sua disposição sob ameaça de morte se tivessem encontros com qualquer outra mulher”, recorda Chandeigne. “Ginga tende a ficar na história africana como a grande heroína do continente. Morreu muito velha. Era uma mulher com uma força de homem, digamos, que comandou as suas tropas no campo de batalha durante muitos anos. É uma figura proto nacionalista de resistência aos portugueses e à opressão”, acrescenta também o historiador francês. “Ao contrário do que se passou no Congo, onde a Igreja local estava nas mãos da elite do país e onde a população abraçou por sua vontade o cristianismo, em Angola a adesão à nova fé foi reticente e forçada”, escrevem no prefácio ao livro Linda Heywood e John K. Thornton, dois dos maiores especialistas do período abrangido pela vida de Ginga. O testemunho de Cavazzi “é excepcional porque o homem era muito atento às práticas culturais, aos cultos dos africanos, aos vestidos, à vida quotidiana. É um testemunho ímpar na história das missões e temos também desenhos com descrição de sacrifícios, práticas de justiça, penas de morte”, iconografia que corresponde aos relatos de grande crueldade que atravessam a obra. A edição da Chandeigne sobre a rainha Ginga, resultado de dez anos de trabalho, corresponde à primeira versão da Histórica descrizione de tre regni Congo, Matamba ed Angola, manuscrito descoberto em Modena (Itália) nos arquivos da família Araldi, em 1969. É deste manuscrito “perdido” que Chandeigne reproduz as aquarelas com cenas da vida na Matamba seiscentista.“Era uma mulher de poder, uma mulher livre, uma grande heroína africana”, resume Michel Chandeigne. “Espero que com este livro o fenômeno ultrapasse as fronteiras do mundo lusófono.”

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Nota de Repudio do Movimento Negro contra a PEC 171/93

As organizações do movimento negro que subscrevem essa nota manifestam o mais profundo repúdio a PEC 171/93 que reduz a maioridade penal dos 18 para 16 anos.
Consideramos essa PEC uma proposta demagógica, reacionária e busca saída fácil à calamidade da violência, crescente nos grandes e pequenos centros urbanos de todo o país. Além de ferir preceito constitucional e atentar contra cláusula pétrea da Constituição, são várias as razões que nos levam a nos contrapor a mais essa faceta do genocídio da juventude negra, pobre e periférica:
1. Não atuam sobre as principais causas da violência: desigualdade socioeconômica; sucateamento da educação; ausência de investimento em cultura e esporte para crianças, adolescentes e jovens; falta de oportunidade e acesso ao trabalho descente.
2. Menos de 2% dos crimes contra a vida são praticados por menores de 18 anos.
3. O sistema prisional brasileiro são verdadeiros campos de concentração, violadores de direitos humanos básicos. Além de não ressocializar o apenado, se constitui, na prática, em escolas de crime.
4. O Estatuto da Criança e do adolescente prevê medidas disciplinares aos adolescentes em conflito com a lei, sendo uma inverdade o argumento de que ele favorece a impunidade.
5. Os alvos prioritários da violência civil e do Estado (polícias militar e civil) são os jovens negros. Nossa expectativa é que o Congresso Nacional rejeite a PEC 171/93 e abrace uma agenda de avanços em direitos e desenvolvimento para o país, incorporando as principais reivindicações dos movimentos sociais e do movimento negro, tais como: reforma política com fim do financiamento privado de campanha e fim da sub-representação de negros, mulheres e jovens nos espaços de poder e decisão; reforma da comunicação com democratização do acesso aos meios e da produção de conteúdo; reforma agrária e total regularização das terras quilombolas; políticas públicas que atenda a juventude negra, socialmente vulnerável, pobre e de periferia; implantação do Estatuto da Igualdade Racial.
Assinam:
1. Agentes de Pastoral Negros – APN´S
2. Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras de São Paulo – APSMNSP
3. Associação Afro Cultural de Matriz Africana São Jerônimo
4. Associação Brasileira de Pesquisadores Negros - ABPN
5. Associação Nacional das Baianas de Acarajé
6. Bocada Forte Hip Hop
7. Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afrobrasileira – CENARAB
8. Coletivo de Entidades Negras – CEN
9. Coletivo Feminista Baré do Amazonas
10. Coletivo Nacional de Juventude Negra – ENEGRECER
11. Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas – CONAQ
12. Coordenação Nacional de Entidades Negras – CONEN
13. Federação Nacional das Associações de Pessoas com Doença Falciforme – FENAFAL
14. Fórum de Juventude Negra do Amazonas
15. Fórum Nacional de Juventude Negra - FONAJU
16. Fórum Nacional de Mulheres Negras – FNMN
17. Instituto Cultural Afro Mutalembê - Amazonas
18. Instituto Padre Batista
19. Instituto Palmares de Promoção da Igualdade
20. Movimento Negro Unificado – MNU
21. Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP
22. Rede Afro LGBT
23. Rede Amazônia Negra – RAN
24. Rede de Jovens do Nordeste
25. União de Negros Pela Igualdade - UNEGRO
26. Instituto das Diversidades e de Desenvolvimento Social e Cultural do Brasil- Motumbá- IDESC MOtumbá.


sábado, 4 de abril de 2015

SOU CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL


Eu sou contra a redação da maioridade penal. Sou a favor de escolas públicas de qualidade em todos esses rincões de pobreza do país. Também sou favorável a construção de creches e salas de cultura e lazer, onde os jovens pobres possam ter acesso a um mundo novo. Diferente da realidade de violência onde vivem. Investir em educação, lazer e cultura permite devolver ao jovem o direito de sonhar com um futuro melhor. A universalização dessas oportunidades fortalece a cidadania e resgata o jovem da situação de iniquidade em que vive com sua família. Quando tem família, no sentido estrito da palavra. Família que o acolha, que o respeite que o estimule e que lhe dê dignidade. É nisso que acredito. É isso que defendo. E aposto. É uma posição conformista – e egoísta – segregar jovens de 16 e 17 anos nos presídios desumanos que vemos em todos os estados. Submetê-los a toda forma de abuso, de violência, agravando ainda mais sua condição de exclusão social. A realidade presente no sistema penal brasileiro não nos permite acreditar no princípio da ressocialização desses adolescentes. Ainda mais quando os levamos a conviver com apenados maior de idade, num espaço físico onde grassa todo tipo de violência. Insistir nesse processo é tornar utópico o esforço pela sua recuperação para o convívio social. Essa situação só o tornará mais violento, agressivo, sedento de vingança contra a sociedade e o próprio sistema que o condenou. É limar qualquer chance de sociabilidade. E num sistema penal que é geralmente mais generoso e tolerante com os filhos das classes média e rica. Por que o SEU filho (da classe média ou alta) pode ter acesso a boas escolas, atividades culturais e de lazer, e ainda assim pode cometer erros e o Estado tem que ser flexível com ele (claro, com o auxílio de um bom advogado)?
O filho da empregada, da faxineira, do pedreiro, dos pobres, dos “de cor”... ah, esses jovens não têm jeito. Não teriam recuperação. São marginais desde o nascimento. Mas o sistema ignora – ou finge desconhecer – que a maioria não tem estrutura familiar, vive no meio de traficantes e bandidos. É lógico que não vai virar “boa gente”.

Será?
Os que bradam a favor da redução da maioridade penal ... eu faço apenas uma pergunta: E depois que esses jovens saírem dos presídios? Ah, ninguém pensa nisso, não é mesmo!?. Dá trabalho pensar. Pois é. Mas a questão não está no encarceramento desses jovens e sim nas consequências de uma prisão inconsequente. Não se pode negar a capacidade de discernimento de um jovem de 16 anos sobre o CERTO e o ERRADO. E vou além. Para aqueles que desconhecem o ECA, no Brasil, mesmo uma criança de 12 anos já pode responder pelo ato infracional e sofrer as sanções das medidas socioeducativas. Só que, infelizmente, essas penas não ressocializam ninguém e muito menos educam. Há certo discernimento entre os jovens, mas não há a plenitude de certos aspectos da socialização. Aos 16 anos ainda há a forte influência dos grupos de convivência e a necessidade de pertencimento e aceitação entre os pares. Outra questão: como fica a nossa sociedade de consumo? A questão do uso abusivo de drogas? Do individualismo exacerbado, que alimenta o egoísmo e a competição a qualquer custo, entre outros valores que são reforçados diariamente pelos grupos sociais e pelos meios de comunicação de massa? O programa de televisão valoriza mais o jovem que TEM. O jovem na vida real que não tem, quer ter para existir. Para ganhar visibilidade.
É muito cômodo para setores privilegiados pensar na redução da maioridade penal apenas sob a ótica do encarceramento. Afinal, tem 16 anos? Cometeu crime? Joga às demais feras no presídio. Mas esse discurso é totalmente falacioso e vazio. Como é hipocrisia alegar que esses adolescentes são usados pelos marginais para praticar crimes. Ora, se isso soa lógico, é claro que os criminosos recorrerão aos menores de 14 e 15 anos a partir de agora. Se o tráfico seduz o jovem de 16 anos para a prática de crimes, com a sua imputação penal nada impede que os traficantes passem a arregimentar crianças de 8 anos de idade, por exemplo. Então a única solução é prender? Será que não há uma falha da sociedade nesse processo? Será que o convívio familiar é realmente acolhedor e responsável? Será que a solução para o problema não estaria no Direito de Família e no Código Civil? E não nos Códigos Penal e de Processo Penal? Por que não instituir mecanismos de maior responsabilização das famílias com seus filhos? Agravar, por exemplo, as penas com a omissão paterna e materna na criação dos filhos?
O que racional e lógico é nos debruçarmos sobre as causas que levam os adolescentes a praticarem ilicitudes e avaliarmos, principalmente, as consequências decorrentes dessa decisão equivocada. Marginalizar e encarcerar jovens de origem humilde, geralmente preto ou pardo, é uma solução abjeta. É buscar apenas uma “limpeza” paliativa e imediatista.

A Mulher Negra, por Maria Nilza da Silva

A Mulher Negra
Maria Nilza da Silva
A situação da mulher preta no Brasil de hoje manifesta um prolongamento da sua realidade vivida no período de escravidão com poucas mudanças, pois ela continua em último lugar na escala social e é aquela que mais carrega as desvantagens do sistema injusto e racista do país. Inúmeras pesquisas realizadas nos últimos anos mostram que a mulher preta apresenta menor nível de escolaridade, trabalha mais, porém com rendimento menor, e as poucas que conseguem romper as barreiras do preconceito e da discriminação racial.
A mulher preta ao longo de sua história foi a “espinha dorsal” de sua família, que muitas vezes constitui-se dela mesma e dos filhos.

quarta-feira, 25 de março de 2015

FESTIVAL DE CULTURA E ARTE NEGRA - FECAN de 22 a 25 de Maio de 2015.


Oficinas de Capoeira Angola com Jean Cigano – Montes Claros, Dança Afro com Madu Santos - Belo Horizonte, Break com Dário Adam -Montes Claros, Percussão com Luciano de Jesus - Montes Claros, Grafite com Wender Miranda - Montes Claros, Mascaras de material reciclável com Hilário Bispo - Montes Claros, Tranças e Penteado com Valéria silva - Belo Horizonte, Culinária Africana com Marilene Pereira - RJ, Jongo com Luanda Pereira -RJ, 20 vagas Artesanato com Ivone Diniz – Pedro Leopoldo.
Vagas Limitadas
30 vagas para Capoeira Angola, 30 vagas Dança Afro, 30 vagas Break 30 vagas, 30 vagas para jongo, 30 para Percussão, 20 vagas Grafite 15 vagas Artes Plásticas mascaras africana, 20 vagas para culinária africana, 20 vagas Artesanato 20 vagas Tranças e Penteado.


Nome_________________________________________________________________End_____________________________________________________________N_____Cep____________Cidade_________________________________________________Tel_________________Cel___________________Data Nascimento______________
Email______________________________________________FaceBook___________

Cor ( )Pardo ( )Preto ( ) Branco ( ) Gênero ( ) F ( ) M ( ) Indígena ( ) Outros
Local das Oficinas ( Comunidade de Canto do Engenho )  
Sábado dia 23 e Domingo dia 24 das 9.h às 16.h
Assinale com um X sua (s) Oficina ( s )
( ) Capoeira Angola ( ) Dança Afro ( ) Break ( ) Percussão ( ) Grafite ( ) Mascaras africana ( ) Trança e Penteado Africano ( ) Jongo ( ) Culinária africana (  ) Artesanato


Dia 25 de Maio:
Lançamento de livros, palestras e debates, homenagens as mulheres negras de destaques e apresentação cultural com a cantora Maristela Cardoso com o espetáculo Afro lírico.
Contatos: 38 91044369 TIM /38 88460040 OI/ 38 97409883 VIVO



sábado, 21 de março de 2015

21 de Março - Dia Internacional contra a Discriminação Racial




No dia 21 de março de 1960, na cidade de Joanesburgo, capital da África do Sul, 20 mil negros protestavam contra a lei do passe, que os obrigava a portar cartões de identificação, especificando os locais por onde eles podiam circular.

No bairro de Shaperville, os manifestantes se depararam com tropas do exército. Mesmo sendo uma manifestação pacífica, o exército atirou sobre a multidão, matando 69 pessoas e ferindo outras 186. Esta ação ficou conhecida como o Massacre de Shaperville. Em memória à tragédia, a ONU – Organização das Nações Unidas – instituiu 21 de março como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

O Artigo I da Declaração das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial diz o seguinte:

"Discriminação Racial significa qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor, ascendência, origem étnica ou nacional com a finalidade ou o efeito de impedir ou dificultar o reconhecimento e exercício, em bases de igualdade, aos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou qualquer outra área da vida pública"

O racismo se apresenta, de forma velada ou não, contra judeus, árabes, mas sobretudo negros. No Brasil, onde os negros representam quase a metade da população, chegando a 80 milhões de pessoas, o racismo ainda é um tema delicado.

Para Paulo Romeu Ramos, do Grupo Afro-Sul, as novas gerações já têm uma visão mais aberta em relação ao tema. “As pessoas mudaram, o que falta mudar são as tradições e as ações governamentais”, afirma Paulo. O Grupo Afro-Sul é uma ONG de Porto Alegre, que promove a cultura negra em todos os seus aspectos.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD – em seu relatório anual, "para conseguir romper o preconceito racial, o movimento negro brasileiro precisa criar alianças e falar para todo o país, inclusive para os brancos. Essa é a única maneira de mudar uma mentalidade forjada durante quase cinco séculos de discriminação”.

Aproveite esta data para refletir: você tem ou já teve atitudes racistas?

A 9ª edição do Festival de Cultura e Arte Negra – FECAN 2015,terá atividades na comunidade do Canto do Engenho.

Festival de Cultura e Arte Negra - FECAN 2015
A 9ª edição do Festival de Cultura e Arte Negra – FECAN 2015,terá atividades na comunidade do Canto do Engenho, Sexta abertura, Sábado e Domingo oficinas de artesanato, danças, percussão, artes plásticas, grafite, penteado africano e finalizando com o comida di preto. No dia 25 atividades serão em Montes Claros com homenagens as mulheres negras em comemoração ao dia da África. Com apresentação cultural de Maristela Cardoso.
partir deste sábado (12/05) a cultura negra vai invadir a cidade como forma de lembrar e marcar o dia 13 de maio, data em que se proclamou, ainda que no papel, a abolição da escravidão no Brasil.
Para isso, durante uma semana (de 22 a 25 de maio), o Festival de Cultura e Arte Negra (FECAN), que está na sua nona edição, movimentam Montes Claros e Canto do Engenho com a realização de diversas atividades, que vão promover debates e reflexões sobre o papel do negro na sociedade, além abordar as conquistas e as demandas dos afro descendentes no Brasil.
O objetivo é mostrar à população a influência do negro na cultura, na culinária, nas danças e até mesmo na língua e ainda, resgatar as tradições da cultura negra.
Foto: Fábio Marçal

O idealizador do movimento, Hilário Bispo, afirma que, "o FECAN já se transformou em tradição em Montes Claros. O festival é fruto da preocupação do movimento negro do Norte de Minas em trabalhar a auto-estima do negro, e fortalecer a cultura de matriz africana no norte de minas, além de afirmar os pontos positivos e as nossas conquistas.
OFICINAS gratuitas para a comunidade.
Oficinas de: capoeira de angola, dança afro, dança, break, percussão, penteado africano,jongo, artesanato e grafite dias 23 e 24 de maio e serão realizada, na comunidade do canto do engenho. As oficinas são abertas ao público, mas as vagas são limitadas.
PALESTRA

As palestras  do 9º FECAN acontecerão na Unimontes a parti das 18.30h no prédio 02 do CCH. No dia 25, a sociedade está convidada a ouvir um pouco da nossa luta.

terça-feira, 3 de março de 2015

8 DE MARÇO, DE 2015 MULHERES CONTRA A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, SEXUAL E DO ESTADO


Maria Dirlene Trindade Marques


A questão da violência contra a mulher passou a ser uma agenda de toda a sociedade. Porem, a violência reconhecida e repudiada é a violência física, por deixar marcas visíveis. Isto é apenas a ponta do iceberg. A violência tem diversas outras formas, deixando marcas invisíveis por toda a vida como a violência psíquica (ações que levam à desvalorização e causa intenso sofrimento como as ameaças, humilhações  exigência de obediência  os insultos, controle de saída de casa, humilhação em publico, desqualificação  etc.); a sexual (impondo uma relação sexual contra sua vontade); social (comportamento que busca o isolamento com o objetivo de sua fragilização); econômica (controlar o dinheiro para manter a dependência econômica); Estado (que legisla e controla nossas vidas).  São formas de violência que atinge a todas as mulheres, desde a infância ate a velhice, estabelecendo uma relação de poder, de opressão. Com isto se mantém e reproduz a submissão. Submissão tão necessária para a lógica do capital, que ao desvalorizar 51% da população, pode pagar salários inferiores para o mesmo tipo de trabalho e ainda tem o trabalho domestico sendo executado de forma gratuita. Assim, as mulheres acumulam no mínimo, duas jornadas: o trabalho domestico e o trabalho assalariado.  Isto garante a ampliação do lucro e, o mais importante, é a naturalização do que é o Ser Mulher, garantindo a manutenção e reprodução do capitalismo.  É o movimento de mulheres que vai denunciar que a exploração e a opressão se combinam e se fortalecem, fazendo parte de um mesmo processo.Para garantir esta situação  a ideologia cumpre um papel fundamental, e através de piadas, brincadeiras, "elogios" reforçam a discriminação  através de máximas como: o homem é duro, não chora, é racional, tem consciência, faz o trabalho produtivo. O homem é valorizado pela sua força, pelo seu cérebro, pela razão. Por isto, ele dá conta do espaço publico, da disputa, da competitividade. A mulher é sentimento, emoção, coração. É sublime, mártir, doce, meiga e chora. Sendo portanto passiva, quieta, rainha do lar reforçando assim o seu lugar: o espaço domestico. Quem ainda não ouviu máxima como: o homem discute e a mulher faz fofocas.  Não é por acaso que se referem ao ser humano como HOMEM. Não é por acaso que quando tem 50 mulheres e 1 homem, se usa o substantivo masculino. Assim, vai se naturalizando os comportamentos. E se constituem 2 seres diferentes sexualmente e desiguais socialmente motivando a bandeira do movimento: “diferentes mas não desiguais”. Esta desigualdade serve ao homem e ao capital. Tornando nossa luta muito mais abrangente, tendo de articular a  luta contra o capitalismo e a luta contra o patriarcalismo.  

A violência sexista afeta portanto a toda nossa vida. Só a nossa unidade, nossa energia, nossa capacidade de auto-organização para enfrentar toda a violência que se abate sobre nós e que muitas vezes, nem é reconhecida como violência.  Sabemos que a luta das mulheres nunca foi fácil. Desde o direito ao voto ate hoje, as mulheres lutam por mudanças. As conquistas são a custa de muita luta.  

A Lei Maria da Penha (LMP) foi uma conquista do movimento feminista e das mulheres. A lei é o reconhecimento de que o privado é publico e é responsabilidade do estado e da sociedade, quebrando a dicotomia entre o publico e o privado, derrubando a lógica histórica de que em “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Esta lei procura assegurar o direito a integridade física  psíquica  sexual e moral. Constitui assim, um grande avanço na luta histórica da violência sexista, trazendo um caráter educativo pois denuncia que a mulher e a menina não são propriedades dos homens, que ele não pode cometer violência impunemente. Mas, para sua efetividade, tem de ter os equipamentos necessários  o que ainda está longe de acontecer. Faltam casas apoio, policia preparada para receber a denuncia, judiciário eficiente para agilizar os processos.   

As conquistas são frutos de muitas lutas e, se o movimento não fica atento, elas são perdidas. Esta é a lógica: se o movimento recua, as elites conservadoras avançam, procurando alterar a legislação existente, retirando direitos. Hoje se discute a elaboração de um novo código penal que traz grandes retrocessos nas conquistas já alcançadas. Temos vários estudos aprofundando a compreensão do novo código. Vou citar aqui alguns retrocessos nele contido, sem esgotar toda sua análise: um grande avanço da LMP era que qualquer pessoa poderia manter a denuncia da violência. Neste novo código, a mulher terá que entrar com uma queixa-denúncia e poderá retirá-la a qualquer momento, prevê a substituição da pena (por medidas alternativas), no crime de lesão corporal, incluindo os casos de violência doméstica, não se leva em consideração o crime de seqüestro realizado por cônjuge, marido, companheiro(a); -  prevê a exclusão do estupro mediante fraude, ou seja, aquele estupro realizado por meio de drogas ("boa noite Cinderela" e bebidas alcoólicas  e etc) ou outras formas que impossibilitem o consentimento da mulher, não se menciona o estupro coletivo (realizado com o concurso de várias pessoas ou por um agente em várias mulheres), nem o estupro corretivo (aquele realizado com a finalidade da "cura" da lesbianidade), equipara a exploração sexual à prostituição, não reconhece as alterações psicológicas que ocorrem com a mulher durante e pós-parto, que continuam sendo punidas. E, junto com todos os trabalhadores, nossos direitos foram restringidos quando o governo baixou  a Medida Provisória que muda as regras de concessão de benefícios previdenciários, como auxílio-doença, pensão por morte, aposentadoria por invalidez que vai atingir em especial as mulheres e pobres. O 8 de março é um dia que as mulheres vão as ruas para denunciar a discriminação para toda a sociedade e trazer as suas reivindicações. Neste ano, estamos de novo nas ruas e conclamamos a todas/os que querem uma sociedade igual e livre de toda forma de discriminação, que se juntem a nós.



Um outro mundo é possível

Um outro Brasil é necessário.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A Conjuntura Negra Brasileira, ou onde é que o calo dói


 Marcha contra o genocídio do jovem negro, Vitória, Espírito Santo, 2014 foto: André Alves
por marcos romão
Espírito Santo-foto andré alves 8

As análises de conjuntura política da sociedade brasileira feitas por vários amigos e amigas, ativistas ou acadêmicos ou os dois juntos do Movimento Negro, são ótimas, qualquer facção de extrema esquerda de qualquer partido de esquerda, ou setor do Movimento Negro de ultra esquerda assinaria embaixo sem piscar.
Temos sido nestes vinte anos a "borra da borra" do café dos setores de esquerda do Brasil, buscando paralelo no conceito branco " creme do creme" , quando nos referimos ao que teria de mais puro e genuíno em um "processo revolucionário". Isto se revelou muito bem nas últimas eleições para presidente em que no primeiro turno o racismo e as discriminações sociais, econômicas, de gênero e religiosas, das quais no Brasil em especial, o racismo é o motor e a matriz, ganhou lugar de destaque nos palanques, na grande imprensa e nas redes sociais.
Esteve subjacente nos discursos de todos e todas as candidatas no primeiro turno a questão racial, ora clara, morte de jovens negros, ora camuflada em discriminação ao "nordestino", vis a vis, preto e índio, e não os brancos Collor, Cids e Sarneys que também são nordestinos, ou no ataque aos médicos cubanos, que são iguais a pretas empregadas e porteiros de prédio, e não aos médico argentino Che Guevara ou "jesuíta" espanhol Fidel Castro, no imaginário branco nacional.
Vimos desde ruivinhas de cabelos encaracolados, passando por louras de cabelos laqueados, até narizes de ferro, dizendo nos palanques que tudo fariam pelos mais pobres, em resumo os negros. Vimos também o tempo todo nas redes sociais, que as discussões foram centradas nas discriminações em geral, contra ou a favor das cotas, contra ou a favor de homossexuais, ou contra ou a favor da pena de morte, e contra ou a favor de bolsa família e planos sociais. Subjacente a todos este temas, o racismo e a questão racial podiam ser visto sem lupa. Nunca vi uma campanha em que o racismo estivesse tão escancarado, tanto nos palanques quanto nas ruas e redes sociais. O voto negro "amorfo" e sem pai nem mãe decidiu ao fim e ao cabo as eleições no segundo turno. Amorfo, desesperançoso, desesperado, mas um voto que foi consciente, nas escolha entre qual seria o melhor carcereiro, ou o carcereiro mais brando, na falta de escolhas
Mal ou bem nosso discurso do Movimento Negro dos 70 prá cá, tomou conta do mercado de almas eleitoras nas últimas eleições. Voto por falta de opção, somado com nulo dados ou não dados pelos negros decidiram a a eleição na reta final.
Aos que pensam que faço uma análise megalômana da "força negra" e do racismo no Brasil, respondo, que é mais uma constatação trágica, pois os marqueteiros e ideólogos brancos, conhecem mais esta força do que nós do Movimento Negro, e a usaram este conhecimento para si e os partidos para os quais venderam o "Produto Negro".
Eles fizeram uma análise da conjuntura nossa, os negros, analisaram todo tempo a "nossa conjuntura" e nosso estado depauperado de conhecimentos e propostas globais e nacionais. Analisaram nossos fraccionamentos, e ignorância teóricas, e a antropofagia do cafre ad eterna que "eles" sabem muito bem manipular.
O mote do branco do Brasil poderia muito bem ser parafraseado de Alexandre Herculano pelo neocolonialismo brasileiro: " O negro passou a ser nosso melhor escravo, depois que deixou de ser escravo nosso."
Uma análise da conjuntura nossa é o que falta ser realizada por nós.
Onde estão, e nas mãos de quem, por exemplo, os nosso milhares de jovens ativistas e ou acadêmicos, nossos cérebros novos, em resumo?
Nos setenta éramos quantos, 100, 200 em todo o país, ativistas negros e negras mostrando a cara? (ressalto aqui, negros que podiam mostrar as caras, pois os mais velho estavam obrigados a se esconder ou por perseguição ou medo de perseguição). Nós, esta pequena centenas de jovens nos 70 e início dos 80 éramos inocentes e não sabíamos o poder que enfrentávamos, por isso ao contrário dos mais velhos mostrávamos nossas caras.
Sorte ou tática, não sei, o poder não sabia lidar com esta batata quente, que era "esse pessoal" atacando a "democracia racial", Sorte nossa que tanto o poder ditatorial, e as esquerdas, nos achavam café-com-leite no espectro político nacional, e quando muito imitadores de "Blackies Americanos".
Éramos para o Brasil um monte de macaquinhos sem cérebro dançando Soul nos subúrbios e nada mais. Nem na telinha aparecíamos. Ainda bem que tem o acervo ddo TELÃO NEGRO da NGURARIJO da Vick e do Ras Adauto, absorvido hoje pela Cultne para provar que não falo de fantasias.
Estes espaços eram os lugares de aprendizado político, em que os "um pouco mais velhos" passavam para os "um pouco mais jovens", conhecimentos sobre a autonomia de nossa luta nacional contra o racismo e restruturação do Brasil sobre novas bases, em que tenhamos a igualdade política plena. Base que para que tenhamos avanços que nos garantam conservar, sem depender da boa vontade de governos, conquistas políticas e sociais, que tenhamos alcançado.
Dos 90 para cá, os jovens negros perderam seus espaços de discussões autônomas para se alimentarem das demandas engendradas nas discussões entre negros. Nossos cérebros cairam de boca nos partidos, sindicatos e academias.
Para não falar do que conheço, pouco, cito apenas o exemplo do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras e Sos Racismo, que conheço muito. São exemplos de como praticamente todas a entidades negras existentes até então, foram aniquilado pela nova conjuntura do Movimento Negro em busca de espaço nos partidos e administrações governamentais;.
Onde estão hoje os jovens negros "cerebrais", que agora já não se contam às centenas e sim milhares neste Brasil?
No Rio de Janeiro em que eu frequento o movimento social e as manifestações desde a Rio+20. Vi negros e negras empunhando bandeiras das mais variadas tendências partidárias ou não, em meio a jovens brancos na linha de frente. Nada melhor para um foto mediática do que um carvãozinho com cabelos crespos no meio de coxinhas brancas.

Quando a cobra fumou, preto com ou sem culpa foi quem dançou e não teve habeas corpus que desse jeito.
Nas academias tenho visto a borra da borra do café intelectual negra. Estudos avançadíssimos e de nível internacional têm sido realizados.
Nos organismos de governos tenho visto negros e negras jovens que Franz Fanon iria se admirar de tanta erudição.
Mas ao fim e ao cabo tenho visto jovens negros em todo o país, com um bom arcabouço político e analítico sobre a conjuntura nacional e internacional, mas que não sabem, simplesmente não sabem o que fazer, quando discriminados na porta de um banco ou de restaurante ou supermercado, nem encarar um policial ou funcionário do SUS ou Seguro privado, que lhe retiram a dignidade ao lhe darem um baculejo, recusarem a entrada, ou recusarem um serviço a que tenham direito como cidadãos, que pagam e caro pelas migalhas que conquistaram!
E os velhos, ou os antigos, como tem uma garotada moderna e "afro centrada" nos tem chamado. Onde é que está este pessoal com experiência acumulada na luta negra brasileira?
Nas redes sociais vejo poucos. À exceção de uma ou outra sessão de prêmio ou homenagem memorial, vejo poucos na vida pública. Ou estão nos seus escaninhos continuando seus trabalhos de formiguinhas conscientizadoras, ou desistiram e volta e meia postam fotos de netos no facebook, ajudados pelas netinhas que entendem desta máquina.

Os antigos pagam um preço bem caro por esta falta de espaço próprio para conversar sobre conjuntura negra e outras hipocondrias.

Mas acontece que a conjuntura, a vida, pois não existe conjuntura sem existência e ação individual ou de grupos, está aí. Florescente como jamais vi, ou nunca antes, como costuma dizer um branco, que soube muito bem usar a "força negra" para seus propósitos individuais e partidários.
Felizmente os velhos ou antigos negros de hoje, não têm um quadro do novo Getúlio na parede de casa. Os tempos mudaram;
A garotada está pululando, tá agitada. Claro que ainda estão nas mãos das tendencinhas guetistas dos partidos e do Movimento Negro, é natural, faz parte da seiva da vida política. O vírus da CS (convergência socialista), inoculado em 1978 no Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR) deu filhotes, e hoje todos os grupos e tendências imitam este erro de nascença, e se especializaram em pescar negros jovens " revoltados", de forma acrítica para suas ideologias ou interesses dentro dos partidos. Importante ressaltar que estes negros e negras "cerebrais", acabam caindo nos guetos de tendências nos partidos, que não têm nenhuma expressão, poder ou voto no direcionamento dos partidos onde estão. Mesmo quando se tornam candidatos a cargos eletivos majoritários, são apenas efeitos simbólicos para interesse dos partido onde estão. Gastam suas granas de de suas famílias, para colherem a frustração da derrota. E quando pior, passam a se revoltar contra a política em geral em se tornam um zero a esquerda no processo de influência sobre a conjuntura nacional.
Não acuso estes jovens. Tiveram a quem imitar. Tiveram os exemplos anteriores de muitos negros e negras que eleitas desde 82, se destacaram no discurso conjuntural disso ou daquilo, mas se afastaram de suas "conjunturas negras", se afastaram das cosmogonias e mundo negro que os elegeram. 2014 foi uma ultrassonografia cibernética de alta tecnologia, revelada nas redes sociais, do distanciamento corporal e físico, entre as cabeças dos negros e negras cerebrais "antigas", e o corpo negro e jovem revoltado do país.
Salvo um ou outro piado não compartilhado e não repercutido nas redes sociais, imprensa e nas ruas, nossas "cabeças cerebrais negras" eleitas, em cargos acadêmicos, vestidos de lideranças sindicais ou partidárias não perceberam que haviam os "corpos" de uma Cláudia "Arrastada", ou um Amarildo "Desaparecido" na tal de "Conjuntura Nacional".
A conjuntura política negra viveu neste momento seu ápice esquizofrênico iniciado lá em 1978. Nossas cabeças cerebrais ficaram sem saber o que dizer e como agir. Ficaram sem saber o que dizer, não porque não estivessem revoltados e não soubessem como agir. Nossas cabeças cerebrais eleitas ou  nos guetos partidários, precisaram antes ouvir uma ordem de seus partidos ou tendências sobre o como agir. Eram seus calos que doíam, mas precisavam antes ouvir um diagnóstico dos seus líderes brancos, de que dedo era a dor que eles deveriam gritar.
Leões sem dentes, esqueceram, que pessoas do movimento social participa dos partidos para levarem as reivindicações dos seguimentos que os colocaram lá. Sem dentes e frustrados, passam então a dar patadas no movimento social que esqueceu que eles existiam. Pois a CONJUNTURA  de quem o calo dói é sempre outra.
Uma pista para analisar a conjuntura negra atual no plano nacional, para saber quem somos nós, negros e negras neste novo momento político. Pode-se procurar ao se fazer uma fotografia dos votos na Rocinha, no Rio de Janeiro, a favela que engoliu Amarildo.
Lá os dois deputados mais votados foram pessoas de espectros políticos opostos, o Bolsonaro e o Freixo. Um pertence à área de defesa dos direitos humanos, outro à turma do prende e arrebenta.
Se cruzarem o número de votos que um candidato a cargo federal e outro a cargo federal tiveram, podem chegar à conclusão que grande parte de votos dos dois, foram dados pelas mesmas pessoas.
Seria um paradoxo? Seriam votos de ignorantes políticos e inconscientes raciais do que estão fazendo e querendo?
Vejo isto como uma análise apressada. Poderia dizer que votaram na indefinida cidadania com direitos e humanos e na indefinida "segurança com porrada" que lhes foram apresentadas, quer nas ruas, quer nas redes sociais durante a campanha eleitoral. Os dois "brancos" estavam falando sobre os calos que doem para todo mundo, brancos, pretos e índios. Falaram de direitos humanos e segurança, cada um a seu jeito, e abocanharam as cabeças negras. Simples assim.
Do nosso lado, o silêncio sepulcral de nossos e nossas Capa-Pretas sobre os temas da " Conjuntura Negra", resultou esta catástrofe nas eleições proporcionais em todos os estados do Brasil. Catástrofe que é representada crua e nua na composição dos secretariados e ministério, dos estados e do planalto. Não temos representação negra. Perdemos, ou demos de mãos beijadas, o quase nada que conquistamos em 45 anos.
Os negros que chegaram ao parlamento foram eleitos por seguimentos religiosos. Eles também prometem aos seus eleitores, segurança na terra e direitos humanos no céu. Ganham fácil o nosso voto.
Ao contrário do que pregam alguns de os nossos intelectuais negros, ativistas ou acadêmicos, ninguém gosta de estar "entregue própria sorte". Em nossa vida individual e cotidiana em nossas famílias e círculos de amigos, nos agarramos no que pudermos para sobrevivermos junto com os nossos.
Mas e nossa conjuntura negra, como é que vai?

Como avô negro me preocupo com três coisa básicas.
1- Se cada um membro de minha parentada, inclusive eu, espalhada por várias cidades, chegamos vivo ao final do dia.
2- Se vai ter café da manhã prá todo mundo e se ninguém vai ser despejado, ter luz ou água cortada e ou ter penhorada sua televisão, por falta de pagamento.
3- Se nenhum dos filhos ou filhas de amigos ou amigas de e amigos de amigos, não foi preso, maltratado ou eliminado pelas forças policiais, ou assaltados e mortos por eles, ou pelo seguimento chamados de bandidos "puros" e "autônomos".
Com estes três itens prescrutados e acalmados, tenho então algum tempo para pensar nos meus vizinhos, na minha cidade, no meu estado, no meu país e na Conjuntura Mundial; Sem estas coisas básicas não passo de de um analista platônico da minha vida. Não passo de uma bolha flutuando para onde o vento me leve. Saber disso aumente a minha consciência de cidadão de um mundo globalizado.
Por sorte, converso volta e e meia com o meu peixeiro de poucas letras, o Bahia, de nome, não de apelido, como os negros espertos e falantes, costumavam serem chamados no Rio dos 60. Vejo, que ele tem sempre uma resposta na ponta da língua, para explicar a sua visão do particular de sua vida, e de sua visão do plural do mundo.
Me disse noutro dia: " Tá ruim mas escolhi, podia ser pior". Ao resumir como estava situação nacional e internacional.
Com sua tirada, eu não poderia encontrar melhor análise da conjuntura do negro brasileiro no atual momento.
"Disse tudo", diria minha sábia jovem sobrinha.
"Voltar às raízes", eram um mote do movimento negro na década de 70.
" Não deixar cortar as árvores plantadas", diria eu em 2015, ao propor uma nova análise da conjuntura em que vivem os negros e negras no Brasil atual.
Não tem que esperar solução de algum governante para o futuro.

Estou engajado há anos na luta contra o morticínio e genocídio do jovem negro no Brasil. Tenho que reconhecer que ao contrário do Mão Branca de 70, quem nos executa hoje são mãos pretas a serviço do racismo branco. Os executores e os mortos são pretos. Não os distingo entre policiais ou bandidos. Numa sociedade menos racista, todos nós negros e negras teríamos uma maior expectativa de vida, sejamos policiais, bandidos, ou meros cidadãos debaixo do fogo cruzado. Somos todos prisioneiros do mesmo gueto que nos empurra a matarmos uns aos outros.
Esta é a conjuntura básica em que vive a pessoa negra brasileira, seja em que seguimento ou classe a que pertença;
Para que tenhamos uma visão da conjuntura nacional como um todo. Temos que saber o que queremos todos e e todas, aqui e agora, temos que tomar  conhecimento da diversidade e riqueza que nós somos. A solução para as dores, as mortes, a tortura e os mal tratos,  nos será apresentada por todas as idéias de todas estas gentes negras e antirracistas.
Ou botamos os dedo em nossas feridas e a tratamos, ou os "outros" vão continuar jogando fel em nossos machucados, dizendo que é bálsamo dos deuses.
Comecemos a nos reconhecer e a nos respeitarmos.
Não batamos nem deixemos que batam em nosso e nossa companheira e companheiro.