Desafios para a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial
Edson França

Antes
de apresentar algumas reflexões sobre os principais desafios que a III
CONAPIR impõe para o movimento negro e para o avanço das políticas de
igualdade racial, faço dois destaques que permeiam as conferências de
políticas públicas intensificadas a partir do governo Lula. Primeiro,
junto com os conselhos, as conferências de políticas públicas são
instrumentos importante de participação social e consultas entre governo
e sociedade civil, reforçam a contínua luta pelo aperfeiçoamento da
democracia, pois permitem que o povo seja um dos atores na formulação
das políticas governamentais. Qualquer iniciativa governamental que
aumenta a participação social na construção das políticas públicas deve
ser valorizada.
Dados
da Secretaria Geral da Presidência da República apontam que nos últimos
10 anos foram convocadas 86 conferências, que abordaram 40 áreas
temáticas, mobilizaram 07 milhões de brasileiros (em todas as esferas,
municipais, estaduais e federais) unidos no esforço de elaborar e
pactuar com o poder público políticas públicas inclusivas. Inegavelmente
o governo acerta ao promover esse virtuoso processo de mobilização da
sociedade civil para formular, aperfeiçoar e propor caminhos aos
governantes, porque permite maior qualidade no diálogo do governo com o
povo e mais acerto nas meditas adotadas. A democracia participativa
coaduna com os anseios dos movimentos sociais, devemos ser convocados
para opinar com o voto em dia de eleição e com opinião nos períodos
entre eleições.
Segundo
destaque é que os movimentos sociais devem delinear com maior precisão
seus objetivos, se organizar para participar e não apostar 100% de suas
fichas nas conferências, não pode ser ingênuo, pois as conferências têm
limites impostos pela institucionalidade e compromissos governamentais, a
pauta é estabelecida a partir de projeto e demanda de governo. A 1ª
Conferência Nacional de Comunicação deliberou sobre o marco regulatório
nas comunicações e a 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos
deliberou sobre o III PNDH foram bem elucidativas do que ocorre quando
se avança o limite político da conferência: nada. Essas e outras
propostas avançadas deliberadas em conferência estão solenemente
guardadas e esquecidas em alguma gaveta de Brasília.
Por isso,
palco prioritário para a luta política dos movimentos sociais são as
ruas, nelas as lutas sociais acumulam forças para conquistas e mudanças
mais profundas, expressam sem limitações temáticas e regimentais os
anseios do povo, dão maior publicidade às manifestações sociais e
disciplinam as massas para a luta. Resumidamente, as conferências são
agendas de governos com a sociedade civil, tem contribuído com os
avanços sociais na medida em que abre para sociedade a possibilidade de
aperfeiçoar as políticas públicas, mas não substituem o principal espaço
para organização autônoma da luta popular: as ruas.
Desenvolvimento e a luta contra a desigualdade e o racismo
O tema da III CONAPIR: “Democracia e Desenvolvimento sem Racismo: por um Brasil Afirmativo”,
está adequado ao estágio da luta política contra o racismo e pela
promoção social da população negra no Brasil, considerando que os
últimos anos foram de ininterrupta defesa das políticas de ações
afirmativas e que lograram importantes êxitos, destacadamente quando o
Estado e não somente o governo incorporou essa dimensão nas políticas
públicas através da legitimidade conferida pelo STF, a mais Alta Corte
Judiciária da Nação, pela aprovação da Lei 10.639/03, do Estatuto da
Igualdade Racial e da Lei das Cotas nas universidades públicas federais.
O
debate sobre democracia e desenvolvimento significará um importante
salto de qualidade ao tema da igualdade racial, colocará novos desafios
ao movimento negro brasileiro. A partir da III CONAPIR o movimento terá
que pensar no modelo de desenvolvimento que defende para o Brasil,
diagnosticar e propor medidas que superem os principais gargalhos que
obliteram a democracia brasileira, para isso, terá que pensar como
maioria populacional, ter mais ambição política e ousadia, definir
corretamente os inimigos, estabelecer alianças políticas com os setores
progressistas da sociedade, sob pena de projetar um grande gueto para
alocar a população negra. Será necessário sair da zona de conforto
mental e pensar num projeto de nação que incorpora o povo com equidade.
Apesar
de as conferências serem instrumentos de consulta e seus resultados não
imporem obrigatoriedade, compreendo que o governo não tem pretensão
deliberada de desconsiderar seus resultados, por isso a SEPPIR e o CNPIR
merecem efusivas saudações pela coragem de chamar a população negra
para discutir economia (desenvolvimento) e presença de negros nos
espaços de poder (democracia) numa conferência oficial, assim o
movimento negro tem oportunidade de sair do lugar comum que tem o
distanciado do debate sobre os reais impasses que aprisionam a população
negra na marginalidade e apresentar uma plataforma incômoda a aqueles
que se beneficiam com as coisas como estão.
Além
do modelo econômico brasileiro, as políticas econômicas equivocadas
decididas pelos governos e a hegemonia de uma minúscula elite na
definição dos rumos da economia nacional são agravantes para situação
dos negros brasileiros, nesse sentido, o movimento negro não poderá
escapar ao debate sobre o papel do Estado na economia. A III CONAPIR
permitirá a discussão sobre o destino dos investimentos de importantes
instituições financeiras públicas (BNDES, CEF e BB) e debater a divisão
das riquezas nacionais (como o pré-sal e mineração). Terá que opinar
sobre a política macroeconômica e debater o saldo do desenvolvimento do
país nos últimos 10 anos para população negra.
Considero
que o produto mínimo que poderá sair desse debate será a aquisição pelo
movimento negro de uma profunda convicção que os principais pontos de
sua pauta serão equacionados com aporte de recursos financeiros, ou
seja, sem dinheiro não se promove justiça social para populações
economicamente marginalizadas. Tenho total segurança que o movimento
negro não cairá no economicismo, o racismo tem forte dimensão histórica,
cultural, moral, psicológica que não permite saídas exclusivamente
econômicas, no entanto, o Brasil não pode continuar sendo a sétima
potência econômica do mundo e no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)
ocupar a 85ª posição no ranking mundial, quando a classificação atinge
somente a população negra a posição vai para o 104º lugar, essa profunda
desigualdade denuncia a perversidade do racismo brasileiro e
matricializa inúmeras formas de opressões, discriminações e
preconceitos.
Democracia e a luta contra o racismo
Democracia
não é um conceito vazio para a luta política do negro brasileiro, mas
um elemento fundamental para avançar nas conquistas, pois democracia é
antítese de racismo. Quanto mais democrática, menos racista será uma
sociedade, de modo que envolver a III CONAPIR nesse debate é um salto
expressivo para o aperfeiçoamento da conferência como instrumento de
dialogo democrático entre poder público e sociedade civil. A população
negra tem uma longa pauta de reivindicação no campo da democratização do
país, a começar pela acentuada ausência de negros e negras nos espaços
de poder.
Os
negros compõem mais da metade da população brasileira, maior
concentração negra fora do continente africano, estão no Brasil desde as
primeiras décadas da colonização, construíram com as mãos a grandeza da
nação, porém, são 02 dos 81 membros do Senado Federal; 43 dos 513
deputados federais; uma ministra nos 39 ministérios, considerando que a
única ministra negra de Dilma ocupa a pasta da igualdade racial; há
assembleias legislativas e câmaras de vereadores em capitais sem
representação negra; das 50 maiores estatais brasileiras somente a
Bahiagás é presidida por negro. Esses dados são uma eloquente denúncia
da defeituosa democracia brasileira que envergonha o país. O Brasil
precisa corrigir essa distorção para mitigar tensões no seio do povo,
inerente em sociedades racistas e desiguais, e criar um ambiente
favorável a um desenvolvimento justo com unidade nacional.
Nos
últimos 30 anos o povo brasileiro atingiu avanços extraordinários,
derrotou a onda reacionária representada pelos governos militares; tirou
de cena a opção neoliberal representada por Fernando Collor e FHC que
entregaram de forma criminosa quase toda riqueza nacional; elegeu um
operário e uma mulher vinculados com as lutas sociais e comprometidos
com uma agenda popular e democrática. Apesar dessas mudanças, o Estado
mantém o mesmo arcabouço legal, as mesmas estruturas burocráticas, em
outras palavras, a institucionalidade do Estado brasileiro continua
antidemocrática, excludente, racista e voltada para o benefício dos mais
ricos e poderosos. De modo que as reformas populares tem que ser
inserida com mais força na pauta democrática, as lideranças do movimento
negro estão desafiadas a politizar o debate sobre a democracia no
Brasil assumindo a bandeira da reforma política, comunicação, agrária,
tributária, urbana e educação.
Como
mensionado acima, essa conferência permitirá quebras de paradigmas e
foi dito também que devemos delinear com maior precisão nossos objetivos
para obter melhores retornos. Assim considero que a III CONAPIR deva
focar dois objetivos para sociedade civil. Primeiro apresentar a posição
do movimento negro sobre a reforma política, defendendo lista
partidária com equidade de gênero e raça, financiamento público
exclusivo de campanha, com vista a acabar com a influência do poder
econômico nos resultados eleitorais, combater a corrupção e aumentar a
representação popular nos legislativos e executivos municipais,
estaduais e federais. Esse posicionamento legitimará a disputa sobre a
reforma política na sociedade, nos partidos e no Congresso Nacional,
além de inserir com força o movimento negro numa importante agenda
nacional.
Outro
objetivo que devemos priorizar é a realização de um censo, nos âmbitos
dos governos estaduais e federal, sobre a presença de negros na gestão
pública, precisamos saber quantos somos e onde estamos na gestão
pública, precisamos de um diagnóstico preciso sobre a desigualdade nos
espaços de poder para podermos combatê-la. Não é possível falar em
democracia num país onde a maioria não está em espaços de representação
em decorrência de discriminações, preconceito, racismo e outras formas
de opressão e intolerância.
Por
fim, devemos ter um olhar estratégico para essa conferência, há um
refluxo nas mobilizações de massas pelos movimentos sociais brasileiros,
as conferências tem assumido o protagonismo das mobilizações. No
movimento negro o refluxo beira a crise de mobilização, as conferências
de igualdade racial hoje é o polo que mais atrai e aglutina a base
social do movimento negro. Não podemos perder a oportunidade para
construir consensos e avançar na luta.
Considero
que a principal lacuna para aumentar a eficácia da luta contra o
racismo é a ausência de caminhos que fortaleça o movimento negro e o
constitua num segmento político social capaz de pautar a nação e obter
vitórias políticas que tire a população negra da marginalidade,
distribua riqueza e mude a vida das pessoas. A conferência não pode se
transformar num espaço para repetição de propostas conhecidas, o que o
movimento negro precisa é de força política para tirar do papel e
garantir a consecução da plataforma de combate ao racismo no Brasil.
Para
não me alongar muito nesse texto abordarei os dois principais subtemas
da III CONAPIR: avaliação dos 10 anos de política de igualdade racial e
Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial – SINAPIR para outro
momento, considerando que essa conferência exigirá muito mais reflexões.
Edson França
Presidente da UNEGRO
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